Notícias do Templo

Dez anos sob a bênção de Pai João

Uma história de Ancestralidade, Amor e Luz.

Por Gleison Cardozo · 6 min de leitura

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Selo dos 10 anos do Templo Escola Pai João de Aruanda: desde 16/10/2016, 10 anos vivenciando Umbanda

Há histórias que começam em um dia. E há histórias que começam muito antes de nós. A história do Templo Escola Pai João de Aruanda é dessas que não cabem inteiramente em uma data, porque suas raízes estão na ancestralidade, na memória dos que vieram antes, nos ensinamentos recebidos e na responsabilidade de continuar caminhando. Mas toda caminhada precisa de um marco para ser celebrada. E, em 16 de outubro de 2026, celebramos dez anos da nossa.

Dez anos desde que os primeiros passos desta casa começaram a ganhar forma. Dez anos de encontros, aprendizados, desafios, mudanças, chegadas e partidas. Dez anos de mãos que ajudaram a construir, de vozes que cantaram, de pés que pisaram o chão sagrado, de médiuns que aprenderam a servir e, sobretudo, de pessoas que encontraram aqui um lugar para serem acolhidas.

Sob a bênção de Pai João de Aruanda, fomos aprendendo que um Terreiro de verdade não se constrói somente com paredes. Constrói-se com presença, com compromisso, com respeito, com cuidado e com a disposição de olhar para o outro e reconhecer nele também uma manifestação da vida.

Uma casa que nasceu para acolher

Desde os primeiros passos, o Templo Escola Pai João de Aruanda foi se constituindo como uma instituição religiosa dedicada à Umbanda e ao exercício de uma espiritualidade que reconhece na ancestralidade uma fonte viva de sabedoria.

Nossa visão nasce do entendimento de que um Templo deve ser também um espaço de paz construtiva, conforto, assistência espiritual, respeito, harmonia e fraternidade. Um lugar onde alguém possa chegar com suas dores sem ser diminuído por elas. Onde possa encontrar escuta antes de encontrar respostas. Onde possa ser acolhido sem precisar esconder quem é.

Por isso, nossas portas procuram permanecer abertas a todos e todas, sem distinção ou condição. Não porque sejamos melhores, mas porque aprendemos que a dignidade não depende daquilo que nos diferencia.

Um Terreiro que nasceu Escola

Talvez uma das marcas mais importantes desta caminhada esteja justamente no nome que carregamos: Templo, porque reconhecemos o Sagrado e nossa ancestralidade. Escola, porque reconhecemos que ninguém nasce pronto.

Na nossa compreensão da Umbanda Esotérica, o desenvolvimento mediúnico não se resume à manifestação de uma faculdade espiritual. Ele exige estudo, disciplina, conhecimento, autoconhecimento e, principalmente, transformação. A mediunidade não deve ser apenas aquilo que fazemos. Ela precisa transformar aquilo que somos.

Ao longo desses dez anos, fomos compreendendo cada vez mais que formar médiuns é também formar pessoas capazes de assumir responsabilidades, compreender a tradição que recebem, respeitar seus fundamentos e colocar seus conhecimentos a serviço do coletivo.

Por isso estudamos, nos perguntamos e refletimos, revemos os caminhos quando necessário. Porque um espaço sagrado que realmente ensina também precisa saber aprender.

Dez anos dentro de uma comunidade

Nossa história também se confunde com a história do lugar onde escolhemos caminhar. O Guará II e o Polo de Modas da QE 40 deixaram de ser apenas o endereço onde o Templo está situado. Tornaram-se parte da nossa identidade.

Aqui construímos vínculos, conhecemos histórias, recebemos famílias, acolhemos pessoas e fomos, pouco a pouco, deixando de ser apenas uma casa religiosa para nos tornarmos parte da comunidade que nos cerca.

A inserção de uma instituição religiosa em seu território não acontece apenas quando ela abre suas portas. Acontece quando ela compreende que tem responsabilidades diante da sociedade. Quando combate o racismo, a homofobia e todas as formas de discriminação.

Quando acolhe quem chega fragilizado. Quando oferece conhecimento. Quando promove convivência. Quando reconhece que espiritualidade e responsabilidade coletiva não caminham separadas. É nesse sentido que entendemos nossa presença no Guará II.

Queremos ser uma casa que pertence ao lugar onde está. Uma casa que recebe, mas também participa. Que preserva suas raízes, mas dialoga com seu tempo. Que honra a ancestralidade sem transformar o passado em uma prisão, fazendo as reparações sociais ensinadas por nossos guias.

Ao longo desses dez anos, talvez uma das palavras que melhor traduza nossa caminhada seja acolhimento. Acolher não significa prometer respostas para todas as dores. Não significa dizer que a espiritualidade eliminará todos os problemas.

Acolher é oferecer presença. É respeitar o tempo de quem chega. É não transformar a fragilidade do outro em instrumento de poder. É lembrar que, muitas vezes, antes de qualquer ensinamento, alguém precisa simplesmente encontrar um lugar onde possa respirar.

Essa compreensão tornou-se parte daquilo que queremos ser. Uma referência de acolhimento espiritual e humano. Uma casa onde a fé não seja utilizada para criar medo, dependência ou submissão, mas para estimular consciência, responsabilidade, esperança e transformação.

Dez anos também significam reconhecer que nem tudo foi fácil. Toda construção verdadeira conhece dias de dúvida. Conhece limitações. Conhece mudanças de planos. Conhece perdas ao longo do caminho e recomeços. A nossa caminhada também foi feita de trabalho silencioso: mãos organizando, limpando, preparando, estudando, cuidando, arrecadando recursos, resolvendo problemas e sustentando aquilo que muitas vezes ninguém vê.

Porque existe um Sagrado que acontece durante a gira. E existe outro que acontece antes dela. Na preparação, na responsabilidade, no cuidado com o espaço e no compromisso com o outro.

Naquilo que fazemos quando ninguém está olhando. É também aí que um terreiro se consolida. Não apenas pela quantidade de pessoas que passam por suas portas, mas pela qualidade dos vínculos que consegue construir com seus membros.

Quando olhamos para trás, não enxergamos apenas uma década. Enxergamos rostos que atravessaram nossas encruzilhadas.

Cada membro que chegou. Cada pessoa que passou por uma gira. Cada médium que ofereceu algumas horas de sua semana. Cada mão que ajudou a chegar até aqui.

Cada pessoa que ensinou e cada pessoa que aprendeu.

Enxergamos aqueles que permaneceram e também aqueles que seguiram outros caminhos. Porque um terreiro também é feito de encontros que duram para sempre e de encontros que cumprem sua missão por determinado tempo. Nada disso diminui a importância do caminho compartilhado.

Ao contrário. É justamente essa passagem de pessoas, histórias e experiências que ajuda uma instituição a amadurecer. Hoje, dez anos depois, podemos olhar para nossa trajetória e reconhecer que a Casa de Pai João se consolidou não apenas como um espaço de prática religiosa, mas como uma casa de acolhimento, estudo, formação mediúnica, convivência e responsabilidade social.

E isso nos alegra. Mas também nos responsabiliza.

Dez anos não são um ponto de chegada

Dez anos podem parecer muito. Mas, diante da ancestralidade que nos sustenta, são apenas um trecho da caminhada. Recebemos uma história que não começou conosco, e estamos preparando uma história que também não terminará em nós.

Essa talvez seja uma das maiores responsabilidades de uma casa de tradição: receber sem se apropriar, preservar sem engessar, transformar sem romper com suas raízes. Honrar aqueles que vieram antes significa também cuidar do que será entregue aos que virão depois.

Por isso, celebramos os dez anos não como quem diz “chegamos”. Celebramos como quem diz: continuamos caminhando.

Com os pés no chão. Com os olhos atentos ao presente. Com a memória voltada para a ancestralidade e, com o coração aberto para o futuro. Pai João de Aruanda nos ensina, pela própria força simbólica da ancestralidade dos Pretos Velhos, que a grandeza não precisa fazer barulho.

Pode existir na simplicidade. Na humildade de quem sabe que todo conhecimento recebido traz consigo uma responsabilidade.

Talvez seja essa a imagem que melhor represente estes dez anos. Uma casa que procura caminhar sem esquecer de onde veio. Uma casa que aprende enquanto ensina. Uma casa que acolhe enquanto também se transforma. Uma casa que reconhece na ancestralidade não uma lembrança distante, mas uma presença viva que orienta o presente.

E que venham os próximos passos. Hoje, quando abrimos as portas do Templo Escola Pai João de Aruanda, não abrimos apenas uma porta física. Abrimos um espaço construído por muitas mãos.

E que os próximos dez anos nos encontrem ainda dispostos a fazer da espiritualidade não apenas uma experiência de fé, mas uma prática cotidiana de acolhimento, responsabilidade, respeito e transformação.

Saravá!

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