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Okê Caboclo: um encontro de fraternidade, natureza e espiritualidade

Por Gleison Cardozo · 4 min de leitura

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Médiuns da Casa reunidos em roda numa clareira da mata, diante do Congá montado sobre uma mesa com flores, velas e a imagem de Jesus, durante o Okê Caboclo.

Há dias que permanecem na memória não apenas pelo que realizamos, mas pelo que sentimos e compartilhamos. O Okê Caboclo é um desses momentos.

Realizado pelo Templo Escola Pai João de Aruanda no dia 12 de setembro, o encontro reuniu os médiuns da Casa em um espaço de natureza, longe da rotina e do ritmo cotidiano, para vivenciar um dia de convivência fraterna, espiritualidade e conexão com as forças da natureza.

Em meio às árvores, ao som das águas e à presença silenciosa da mata, a corrente mediúnica encontra outro tempo. Um tempo de escuta, de presença e de comunhão.

O Okê Caboclo nos convidou a lembrar que a natureza não é apenas cenário para a nossa espiritualidade. Ela é parte do caminho. As matas, os rios, as ervas, as águas e todos os elementos naturais nos ensinam sobre equilíbrio, renovação, força e vida.

Na força das matas e das águas

A energia dos Caboclos e Caboclas se faz presente de maneira especial nesse encontro. São forças que nos aproximam da natureza e nos convidam a reconhecer a sabedoria que existe na simplicidade de uma árvore, no movimento das águas, no silêncio da mata e na força que nasce da terra.

Durante o dia, foram realizados trabalhos de harmonização, cuidados espirituais e momentos de conexão com os guias espirituais.

Sob um lindo bambuzal, encontramos o lugar para erguer nosso Congá. Em meio ao verde, cercado pela beleza e pela força da natureza, aquele espaço se transformou em nosso ponto de encontro com o Sagrado. Ao seu redor, reunimos a corrente para cantar, saudar e reverenciar as diferentes linhas de Caboclos e Caboclas, celebrando suas forças, seus ensinamentos e sua ligação profunda com as matas, as águas e os elementos da natureza. Ali, entre o canto, a mata e a presença dos irmãos, sentimos que o Congá não estava apenas diante de nós: ele se fazia presente também em toda a natureza que nos acolhia.

O Congá erguido sob o bambuzal: mesa com toalha branca, velas coloridas em pratos de barro, copos d'água, dois vasos de flores, a imagem de Jesus e, acima, um cocar azul preso aos bambus.Detalhe do Congá: a imagem de Jesus Misericordioso e uma vela branca sobre um toco de madeira, com o cocar azul ao fundo, entre os bambus.

Em um espaço reservado e apropriado, vivenciamos também um momento dedicado à medicina ancestral, com a aplicação do rapé sagrado aos médiuns que desejaram participar. Em contato com a mata, esse momento foi vivido com respeito e intenção, como uma experiência de conexão, presença e escuta interior, buscando aprofundar o vínculo com a natureza e com a força ancestral que permeia o encontro.

Rumamos ao encontro com o Ribeirão dos Bois, onde a firmeza nas águas de Oxum ocupou um lugar especial em nossa jornada. As águas doces nos remetem à vida que flui, à capacidade de renovação e ao cuidado que acolhe. Na tradição da Casa, aproximar-se das águas de Oxum é também um convite para olhar para dentro, reconhecer aquilo que precisa ser harmonizado e permitir que a vida siga seu curso. Dentro do rio, vivenciamos ainda o ritual de sacudimento, conduzido com o bate folhas do Caboclo Pedra Preta, em um momento de profunda conexão com a natureza e com o Sagrado. O movimento das folhas sobre cada médium simbolizou a limpeza e a renovação das energias, buscando favorecer o equilíbrio e auxiliar nos processos de cura individual, sempre respeitando o tempo, a história e o caminho espiritual de cada pessoa. Entre as águas e as folhas, cada médium foi convidado a se abrir à experiência de conexão consigo mesmo, com a força da natureza e com o Sagrado.

Dentro do Ribeirão dos Bois, um médium com um feixe de folhas na mão pousa a outra mão sobre a cabeça de outro médium durante o sacudimento.Com a água pela cintura, um médium de guia azul e branca apoia as mãos numa grande pedra à margem do Ribeirão dos Bois.

Nas águas, encontramos movimento. Na mata, encontramos enraizamento. E entre esses dois movimentos, o fluir e criar raízes, também encontramos uma importante dimensão do nosso caminhar espiritual.

Um dia de convivência fraterna

O Okê Caboclo também acontece fora dos momentos ritualísticos. Acontece na conversa compartilhada em volta de uma mesa de frutas, no almoço coletivo, na ajuda oferecida ao irmão, na caminhada pela propriedade, na organização dos espaços e nos pequenos gestos de cuidado.

É nesse convívio que a corrente se reconhece como comunidade.

A experiência mediúnica não se constrói somente diante do Congá. Ela também se fortalece na capacidade de conviver, colaborar, respeitar diferentes histórias e compreender que cada pessoa contribui, à sua maneira, para a construção coletiva.

Por isso, o Okê Caboclo é também um exercício de respeito. Estar em um ambiente natural nos lembra ainda da responsabilidade que temos com a própria natureza.

Cuidar do espaço onde realizamos nossos trabalhos espirituais é parte do respeito ao Sagrado. Recolher os resíduos, preservar a mata, respeitar as águas e deixar o lugar como o encontramos são atitudes que expressam, na prática, aquilo que acreditamos. A espiritualidade também se manifesta na responsabilidade. Não basta buscar a força da natureza. É preciso aprender a cuidar dela.

Que cada Okê Caboclo possa permanecer em nós para além daquele dia: como memória, aprendizado e compromisso com uma vida mais harmoniosa, consciente e conectada à natureza.

Saravá!

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