Saber das GirasGira de Exús e Pombagiras

A vida não pode permanecer parada diante daquilo que já aconteceu

Por Junior Cremonez · · Leitura de 4 minutos

Meus irmãos e minhas irmãs,

Estamos chegando ao final de agosto, e talvez este seja um bom momento para silenciar um pouco e perceber o que este mês despertou em cada um de nós. Sob a presença de Obaluaiê, agosto nos convida a olhar para aquilo que normalmente tentamos esconder. Não somente as dores do corpo, mas também aquilo que pesa no coração: uma mágoa antiga, uma perda, uma decepção, um medo, uma lembrança ou até mesmo algo que nunca conseguimos colocar em palavras.

Obaluaiê nos mostra que não precisamos ter vergonha das nossas marcas. Cada pessoa carrega uma história que ninguém conhece por inteiro. Existem cicatrizes que não aparecem aos olhos, mas que fazem parte da nossa caminhada. E talvez a verdadeira transformação aconteça quando conseguimos olhar para elas com menos sofrimento e mais compreensão. O que passou não precisa desaparecer para deixar de nos machucar.

É nesse momento que a presença de Exú e Pombagira se torna tão importante. Porque a vida não pode permanecer parada diante daquilo que já aconteceu.

Exú e Pombagira representam movimento, escolhas, caminhos e transformação. Eles nos lembram que estamos sempre diante de encruzilhadas e que algumas decisões precisam ser tomadas, mesmo quando ainda não sabemos exatamente o que existe depois da próxima curva.

Nem toda porta fechada representa uma derrota. Algumas simplesmente mostram que chegou a hora de procurar outra passagem. Há encontros que terminam, relações que mudam, situações que perdem o sentido e planos que não acontecem. Na hora, podemos enxergar apenas a frustração. Mais tarde, talvez percebamos que a vida estava nos conduzindo para outro lugar.

E é também através de Exú e Pombagira que aprendemos a reconhecer nosso próprio valor. Eles nos lembram que amar não significa aceitar qualquer coisa, que cuidar não significa esquecer de si e que permanecer nem sempre é prova de lealdade. Há momentos em que a maior demonstração de respeito por nós mesmos é saber dizer: isso não faz mais parte da minha vida.

Talvez algumas das grandes lições deste mês estejam justamente aí. Nem tudo precisa de resposta. Nem toda história precisa de um novo capítulo. Algumas situações pedem apenas aceitação.

Algumas pessoas precisam ser lembradas com carinho, mas continuar seguindo suas próprias vidas. E algumas dores precisam deixar de ser companheiras diárias.

Perdoar também pode fazer parte desse processo. Não para justificar o que aconteceu, mas para recuperar a tranquilidade que ficou presa naquela história. Quando conseguimos olhar para o passado sem desejar voltar para ele, alguma coisa dentro de nós começa a ficar mais leve.

Obaluaiê nos lembra da transformação e da impermanência da vida. Exú e Pombagira nos colocam diante das nossas escolhas e nos ajudam a compreender os movimentos da caminhada. E nós, diante disso, precisamos assumir nossa parte. A fé não significa esperar que tudo aconteça sozinho. Fé também é atitude, responsabilidade e coragem para fazer escolhas diferentes.

Por isso, ao terminar agosto, talvez não seja necessário perguntar apenas o que ganhamos ou o que perdemos. Podemos perguntar: o que este período mudou em mim? O que eu compreendi? O que eu não quero mais repetir? E quem eu quero ser daqui para frente? Que cada um possa sair deste mês levando aquilo que realmente merece permanecer: experiência, maturidade, gratidão e aprendizado. O restante pode encontrar seu lugar no tempo.

E agora abrimos setembro. Depois de toda essa reflexão, recebemos uma energia mais leve, representada pela presença das nossas crianças, dos nossos Erês.

Eles chegam nos lembrando de algo que a vida adulta muitas vezes nos faz esquecer: a alegria pode ser simples. Um sorriso, uma brincadeira, um abraço, uma palavra sincera podem trazer luz para um dia inteiro. E setembro também nos traz a primavera. As flores começam a aparecer, a natureza se renova e tudo parece nos lembrar que a vida encontra maneiras de recomeçar.

Que essa mudança de estação aconteça também dentro de nós. Que setembro traga alegria para aquilo que estava pesado, esperança para aquilo que parecia distante e sabedoria para reconhecer o que realmente importa. Que nossos Erês nos tragam a leveza da criança sem nos tirar a maturidade que a vida nos ensinou. Que possamos sorrir mais, agradecer mais e enxergar beleza nas pequenas coisas.

Que agosto fique como aprendizado, que setembro chegue como renovação e que a primavera encontre espaço para florescer dentro de cada um de nós.

Que venha setembro, que venha a primavera e que nunca nos falte sabedoria para caminhar, coragem para mudar e alegria para viver.

Laroyê Exú! Laroyê Pombagira!

Que assim seja!

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