Saber das GirasGira de Exús e Pombagiras Mirins

Espelhos nem sempre mostram aquilo que gostaríamos de enxergar

Por César Mandeli · · Leitura de 2 minutos

Hoje e neste mês de Obaluaê, somos convidados a olhar para dentro, em especial nesta gira de Exús e Pombagiras Mirins.

Quando ouvimos a palavra “Mirim”, muitas vezes pensamos imediatamente em criança. Mas, dentro das diferentes tradições da Umbanda, essa palavra não deve ser compreendida como sinônimo de infância. A falange dos Mirins possui uma força própria, marcada pela irreverência, pela espontaneidade, pela provocação e, principalmente, pela capacidade de revelar aquilo que muitas vezes tentamos esconder de nós mesmos.

Exú e Pombagira Mirim trabalham na Esquerda e trabalhar na Esquerda não significa trabalhar para o mal. A Esquerda é caminho de proteção, de defesa, de descarrego e de enfrentamento das energias e das sombras que fazem parte da experiência humana.

E talvez seja justamente por isso que às vezes o trabalho destes espíritos de luz possa nos causar desconforto.

Porque os Mirins não precisam necessariamente nos ensinar através de um discurso bonito. Eles podem ensinar através da provocação. Podem brincar com aquilo que levamos a sério demais. Podem tocar justamente naquele ponto onde nosso orgulho é ferido. Podem nos colocar diante de comportamentos, desejos, medos, vaidades e contradições que preferimos não reconhecer.

É como um espelho e espelhos nem sempre mostram aquilo que gostaríamos de enxergar.

Todos nós carregamos dentro de nós aquilo que consideramos luz e aquilo que ainda precisa ser transformado. Temos virtudes, mas também temos vícios. Temos amor, mas também temos ressentimentos. Temos humildade, mas também temos orgulho. Temos coragem, mas também temos medo.

Evoluir não significa fingir que essas sombras não existem, mas sim reconhecê-las. Porque aquilo que não reconhecemos, não conseguimos transformar.

Evolução não é apenas chegar a algum lugar; é caminhar. É aprender. É cair e levantar. É reconhecer nossos erros, romper ciclos, curar feridas e ter coragem para começar novamente.

Talvez essa seja uma das grandes lições que os Mirins possam nos trazer: Não precisamos ter medo de olhar para aquilo que ainda não está pronto em nós, é necessário ter coragem para mudar.

Que nesta gira possamos deixar cair algumas máscaras. Que tenhamos humildade para enxergar nossas próprias contradições e sabedoria para não confundir aquilo que somos hoje com aquilo que estamos destinados a ser.

Que Exús e Pombagiras Mirins nos auxiliem a compreender que aquilo que nos incomoda pode trazer ensinamento; aquilo que nos provoca pode revelar uma ferida; e aquilo que escondemos pode ser justamente aquilo que precisa de luz.

Que possamos sair desta gira não apenas protegidos, mas também transformados. Porque proteção sem transformação nos mantém seguros, mas parados no mesmo lugar e evolução requer movimento.

Que a força e a astúcia dos Exús e das Pombagiras Mirins nos ensinem a olhar para nós mesmos sem medo, sem máscaras e sem ilusões.

Saravá a Casa de Pai João

Laroyê todos os Mirins

Mirim Mojubá

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