Saber das GirasGira de Caboclos e Caboclas

Aquilo que hoje parece ser o fim pode ser a matéria-prima do seu próximo começo

Por Gleison Cardozo · · Leitura de 6 minutos

Boa noite, irmãos e irmãs de fé.

Hoje nossa corrente se reúne para a gira de Caboclos e Caboclas. E é importante lembrarmos que, dentro da Umbanda, quando falamos em Caboclos, não estamos falando de uma única vibração ou de uma única forma de manifestação. Existem Caboclos e Caboclas que trabalham em diferentes linhas, campos de força e vibrações dos Orixás.

E nesta noite, de maneira especial, podemos nos aproximar da força dos Caboclos da vibração de Obaluaiê.

Quando pensamos em Obaluaiê, é muito comum imediatamente associá-lo à cura. E não é errado. Obaluaiê é, sim, o grande curador, aquele que atua sobre nossas dores, enfermidades, desequilíbrios e processos de transformação.

Mas talvez possamos ampliar um pouco mais o nosso olhar.

Obaluaiê não é apenas aquele que cura aquilo que está doente. Ele é aquele que nos ajuda a atravessar aquilo que precisa mudar.

Obaluaiê é o Senhor das Passagens.

Passagem de um plano para outro, de uma dimensão para outra, de uma condição para outra. Atua nos grandes ciclos da existência, inclusive nos processos de nascimento, morte e reencarnação.

E isso nos traz um ensinamento muito profundo: O chamado da mudança: quando a espiritualidade nos convida a atravessar

A vida é feita de passagens.

Nós estamos constantemente atravessando alguma coisa.

Passamos da infância para a adolescência, da juventude para a maturidade. Passamos por mudanças de trabalho, de relacionamentos, de cidade, de projetos, de crenças.

Há momentos em que precisamos deixar para trás uma versão de nós mesmos para que outra possa nascer.

E talvez uma das maiores dificuldades do ser humano seja justamente compreender que nem toda mudança é uma perda. Algumas mudanças são portas.

Às vezes, porém, queremos continuar em lugares, relações, comportamentos e pensamentos que já cumpriram sua função em nossa caminhada.

Queremos permanecer conhecidos porque o desconhecido assusta.

E é justamente aí que a vibração de Obaluaiê pode nos ensinar.

Seu Fator Transmutador nos fala da capacidade divina de transformar. Transmutar não significa simplesmente apagar aquilo que aconteceu. Significa permitir que aquilo que aconteceu encontre uma nova função dentro da nossa evolução.

É transformar o negativo em positivo.

É transformar a dor em aprendizado.

É transformar uma queda em consciência.

É transformar uma experiência difícil em maturidade.

É transformar aquilo que nos aprisionava em algo que nos impulsiona para frente.

E existe algo ainda mais profundo: a transmutação não acontece somente sobre uma situação específica. A força de Obaluaiê também pode transmutar a ação dos próprios fatores que atuam sobre nossa existência.

É como se a espiritualidade nos dissesse:

“Aquilo que hoje parece ser o fim pode ser a matéria-prima do seu próximo começo.”

Quantas vezes uma mudança que inicialmente rejeitamos acabou nos levando para um lugar melhor?

Quantas vezes aquilo que parecia uma perda abriu espaço para algo que ainda não conseguíamos enxergar?

Quantas vezes a vida precisou nos tirar de uma zona de conforto porque nós mesmos não teríamos coragem de sair?

É por isso que a vibração de Obaluaiê também está profundamente relacionada à evolução.

Evoluir é fazer uma passagem.

É sair de um nível de consciência e alcançar outro.

É perceber aquilo que antes não percebíamos.

É compreender aquilo que antes não compreendíamos.

É deixar de reagir da mesma maneira diante das mesmas situações.

Porque evolução espiritual não é apenas saber mais sobre espiritualidade.

Evolução é transformar a maneira como vivemos.

É quando aprendemos a responder com consciência onde antes reagíamos com impulso.

É quando aprendemos a colocar limites sem ódio.

É quando conseguimos perdoar sem precisar voltar para aquilo que nos fez mal.

É quando conseguimos seguir em frente sem precisar apagar nossa história.

É quando compreendemos que algumas pessoas caminham conosco durante determinado trecho, mas não necessariamente durante toda a jornada.

E os Caboclos da vibração de Obaluaiê podem atuar justamente nesse campo: auxiliando-nos nas mudanças, nas passagens, nos encerramentos e nos recomeços.

Talvez hoje alguém tenha chegado aqui carregando uma situação que precisa mudar.

Talvez alguém esteja vivendo uma transição.

Talvez exista uma relação que precise ser ressignificada.

Um pensamento que precisa ser transformado.

Um comportamento que precisa ser abandonado.

Uma culpa que precisa ser compreendida.

Um medo que precisa ser atravessado.

Ou simplesmente uma velha versão de si mesmo que já não cabe mais na pessoa que estamos nos tornando.

E talvez a pergunta desta noite não seja:

“O que eu quero que a espiritualidade mude na minha vida?”

Talvez a pergunta seja:

“O que em mim precisa mudar para que minha vida possa mudar?”

Porque muitas vezes pedimos uma nova realidade, mas continuamos alimentando os mesmos pensamentos.

Pedimos novos caminhos, mas continuamos presos aos caminhos antigos.

Pedimos cura, mas resistimos ao processo que nos faria abandonar aquilo que adoece nossa alma.

Pedimos evolução, mas queremos evoluir sem precisar mudar.

E Obaluaiê nos ensina que não existe passagem sem movimento.

Não atravessamos uma ponte permanecendo parados diante dela.

Não chegamos a uma nova margem sem deixar a margem anterior.

Por isso, nesta noite, quando os Caboclos e Caboclas dessa vibração se aproximarem de nossa corrente, podemos pedir não apenas cura. Podemos pedir coragem para mudar.

Coragem para atravessar.

Coragem para fechar ciclos.

Coragem para abandonar padrões.

Coragem para aceitar que algumas coisas terminaram.

E, principalmente, coragem para permitir que uma nova consciência nasça dentro de nós.

Porque às vezes queremos que Obaluaiê retire a doença, mas precisamos compreender que a cura também pode significar a transformação daquilo que produz o desequilíbrio.

Às vezes queremos que ele retire a dor, quando a dor está tentando nos ensinar alguma coisa.

Às vezes queremos apenas voltar a ser quem éramos antes da experiência.

Mas talvez a espiritualidade esteja nos convidando para algo maior:

não voltar a ser quem éramos, mas nos tornar quem podemos ser.

Essa é a passagem.

Essa é a evolução.

E é por isso que a presença de Obaluaiê pode ser tão profunda em nossas vidas.

Ele nos lembra que nada permanece exatamente como está.

A natureza transforma.

O corpo transforma.

A consciência transforma.

A vida transforma.

E nós também precisamos nos permitir transformar.

Que nesta gira possamos entregar às forças de Obaluaiê aquilo que já não precisamos carregar.

Que possamos deixar no chão sagrado os velhos medos, as culpas, os ressentimentos, os padrões repetitivos e tudo aquilo que impede nossa caminhada.

E que os Caboclos e Caboclas que trabalham nessa vibração possam nos auxiliar a fazer as passagens necessárias.

Não para que sejamos poupados de todos os processos da vida, mas para que tenhamos força, consciência e fé para atravessá-los.

Que Obaluaiê nos ensine que transformação não é destruição.

Transformação é nascimento.

E que, ao final desta gira, cada um de nós possa sair um pouco diferente de como entrou.

Mais consciente.

Mais leve.

Mais inteiro.

E talvez com a coragem necessária para dar aquele passo que a nossa alma já sabe que precisa dar.

Atotô Obaluaiê!

Okê Caboclos e Caboclas!

Que assim seja.

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