Saber das GirasGira de Erês
Tudo passa pelo movimento da transformação
Por Gleison Cardozo · · Leitura de 4 minutos
Nesta semana nos aproximamos da celebração de Obaluaiê, o Senhor dos Ciclos, aquele que rege as passagens da vida e conduz todos os seres em sua caminhada evolutiva.
Na Umbanda, muitas vezes lembramos de Obaluaiê como o Orixá da cura. Mas sua cura não se limita ao corpo. Ele cura a alma quando nos ajuda a deixar para trás aquilo que já não serve mais ao nosso crescimento. Cura quando encerra ciclos, quando rompe prisões emocionais, quando transforma sofrimento em aprendizado e limitações em oportunidade de evolução.
Nada permanece igual diante da Lei Divina. Tudo evolui. Tudo amadurece. Tudo passa pelo movimento da transformação.
A força de Obaluaiê atua justamente nas passagens: da ignorância para o conhecimento, do orgulho para a humildade, do medo para a confiança, da tristeza para a esperança.
E é muito significativo que, poucos dias antes de sua celebração, estejamos reunidos em uma gira de Erês.
À primeira vista, pode parecer uma coincidência. Mas não é.
Os Erês representam um dos maiores ensinamentos espirituais da Umbanda: ninguém evolui sem recuperar a simplicidade do coração.
A alegria que cura, a simplicidade que transforma
Vivemos em uma sociedade que valoriza o excesso de controle. Queremos prever tudo, entender tudo, resolver tudo imediatamente. Carregamos preocupações que ainda nem aconteceram e revivemos dores que já passaram.
Pouco a pouco, deixamos de viver o presente.
Os Erês chegam para nos lembrar daquilo que Jesus ensinou há mais de dois mil anos: “Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus.”
Jesus não estava falando de infantilidade.
Ele falava da pureza, da confiança, da capacidade de aprender todos os dias e da ausência das máscaras que os adultos constroem ao longo da vida.
Na Umbanda Esotérica, compreendemos que a criança simboliza uma consciência aberta para Deus.
Uma consciência que ainda consegue se maravilhar com a vida.
E talvez seja justamente isso que precisamos recuperar.
Porque existe uma grande diferença entre ter problemas e viver dominado pelos problemas.
A alegria que os Erês nos ensinam não é uma felicidade superficial.
Não é fingir que está tudo bem.
É uma escolha espiritual.
É decidir que nossas dificuldades não terão mais força do que nossa fé.
É confiar que todo ciclo difícil também passa.
Obaluaiê nos mostra que toda transformação começa dentro de nós.
Nenhuma energia pode ser verdadeiramente transmutada enquanto permanecermos alimentando os mesmos pensamentos de medo, revolta, culpa ou reclamação.
Toda transformação começa na consciência.
Por isso podemos falar de uma verdadeira transmutação mental.
Quando mudamos a qualidade dos nossos pensamentos, modificamos também nossa vibração.
E uma vibração mais elevada nos permite enxergar soluções onde antes só víamos obstáculos.
Os Erês nos ensinam esse caminho através de gestos extremamente simples.
O primeiro é o sorriso.
Sorrir não significa ignorar as dificuldades.
Significa lembrar que nossa essência espiritual permanece intacta, mesmo quando atravessamos momentos difíceis.
O sorriso abre o coração.
O coração aberto permite que a luz alcance lugares onde o medo mantinha tudo fechado.
O segundo ensinamento é abandonar o hábito da reclamação.
Reclamar constantemente nos prende exatamente ao campo vibratório que desejamos deixar.
Quanto mais alimentamos a insatisfação, mais difícil se torna perceber as oportunidades que Deus coloca diante de nós.
Os Erês raramente olham para aquilo que falta.
Eles sempre encontram motivo para celebrar aquilo que já existe.
E o terceiro ensinamento é a gratidão.
A gratidão talvez seja uma das maiores expressões de confiança na Lei Divina.
Quem agradece reconhece que Deus continua conduzindo sua caminhada, mesmo quando ainda não compreende todos os acontecimentos.
A gratidão muda nossa frequência espiritual.
Ela nos aproxima da abundância, da serenidade e da esperança.
Talvez seja por isso que os Erês trabalham quase sempre entre brincadeiras, doces, cantigas e risos.
Não porque a espiritualidade seja ingênua.
Mas porque a alegria possui uma frequência elevadíssima.
Uma pessoa verdadeiramente alegre espalha paz.
Uma pessoa grata fortalece quem está ao seu redor.
Uma pessoa simples abre espaço para que Deus trabalhe em seu coração.
Nesta noite, cada um de nós pode fazer uma pergunta muito sincera:
O que preciso deixar para trás para que um novo ciclo comece?
Talvez uma mágoa.
Talvez um medo.
Talvez a necessidade de controlar tudo.
Talvez o hábito de reclamar.
Talvez a dificuldade de confiar.
Entreguemos tudo isso aos pés de Obaluaiê.
E peçamos aos Erês que despertem novamente em nós a leveza, a espontaneidade e a alegria de viver.
Porque evoluir não é apenas aprender mais.
É tornar-se mais simples.
Mais humilde.
Mais verdadeiro.
Mais capaz de confiar na Lei Divina.
Que Obaluaiê conduza todas as nossas transformações.
Que os Erês devolvam ao nosso coração a pureza necessária para viver essas mudanças.
E que saiamos desta gira com menos peso na alma e mais luz na consciência.
Saravá a todos!
Oni ibejada!
Textos com direitos autorais reservados, podem ser utilizados em parte ou na íntegra. A fonte sempre será citada.



