Notícias do Templo
Setembro: quando a alegria reina no terreiro
Por Gleison Cardozo · 4 min de leitura
Há meses que chegam trazendo uma atmosfera própria. Setembro, na nossa Casa, tem sido assim: um tempo em que a alegria ganha espaço, os encontros se tornam mais leves e o terreiro parece se encher de uma energia que nos convida a olhar novamente para aquilo que, tantas vezes, deixamos pelo caminho quando crescemos: a capacidade de brincar, confiar, celebrar e encontrar beleza nas coisas simples.
Um mês de ancestralidade, aprendizado, partilha e alegria em homenagem aos Erês.
Tudo começou com a nossa Roda de Ancestralidade. Foi ali que Vovó Cambinda fez questão de compartilhar com a corrente mediúnica conhecimentos importantes para compreendermos a força da ancestralidade e, especialmente, o significado da presença dos Erês em nossa tradição.
Para falar sobre eles, Vovó trouxe um antigo provérbio bantu que sintetiza uma profunda compreensão sobre comunidade e futuro: “Os pés das crianças pequenas são os pilares da casa.”
A imagem é simples, mas carrega uma grande sabedoria. Os passos das crianças de hoje anunciam os caminhos da comunidade de amanhã. Onde elas pisam, como são cuidadas, educadas e acolhidas e quais valores recebem ajudarão a construir a sociedade que virá.
Cuidar das crianças, portanto, nunca é apenas olhar para o presente. É cuidar da continuidade da vida.
Na Roda, Vovó também nos conduziu por referências africanas que ajudaram a compreender a origem e os sentidos atribuídos aos termos Dois-Dois, Erês, Ibejis, Doum e Mabaça.
Entre os povos Yorubá, encontramos a tradição do Orixá Ibeji, associada aos gêmeos e à sua dimensão sagrada. Em determinadas tradições, quando uma criança gêmea morria, era confeccionada uma pequena imagem de madeira, chamada de Eré Ibeji, que passava a representar e honrar aquela criança dentro da família.
Essa tradição revela uma relação profunda entre infância, ancestralidade, memória e continuidade. A criança não era simplesmente esquecida com a morte. Sua presença permanecia integrada à vida familiar e comunitária.
Os gêmeos recebiam, em diferentes contextos da tradição africana, um tratamento especial e eram envolvidos por uma dimensão sagrada. Para os povos Bantus sua existência era relacionada à ancestralidade e ao mundo espiritual, e as águas também aparecem nesse universo simbólico como espaço de ligação com forças ancestrais. Esses espíritos são emissários dos espíritos ancestrais Basimbi, capazes de curar pessoas.
É importante lembrar que as tradições africanas são diversas e que os sentidos de Ibeji, Erê e das entidades infantis na Umbanda não são simplesmente equivalentes entre si. Nossa religião reúne diferentes heranças, reelaboradas ao longo de sua própria história. Conhecer essas raízes, portanto, foi também reconhecer a riqueza e a diversidade dos povos que ajudaram a formar nossas tradições.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes forças da presença dos Erês nos terreiros. Eles não nos falam apenas de infância. Falam de virtudes que não deveriam desaparecer quando crescemos.
Alegria. Generosidade. Confiança. Espontaneidade. Capacidade de compartilhar. Disposição para celebrar a vida.
Há uma sabedoria que chega sem solenidade. E talvez por isso, quando setembro chega, o terreiro se transforma. A preparação da nossa festa já é parte da própria celebração. Ver os médiuns reunidos para montar os saquinhos de doces, conversar, brincar, organizar cada detalhe e compartilhar o trabalho é perceber que a energia dos Erês não espera a hora da gira para se manifestar. Ela começa muito antes.
Está no sorriso de quem chega, na mão que ajuda, na brincadeira durante a preparação, na disposição de fazer algo para o outro e, principalmente, na alegria que nasce quando uma comunidade se reúne para construir, coletivamente, um momento de celebração.
E então chega o dia da Gira em Homenagem aos Erês onde tudo vira festa. A Casa se enche de balões coloridos, doces, risos e expectativas. A firmeza preparada com respeito dá lugar à celebração. A saudação abre o caminho para a presença das crianças espirituais e, pouco a pouco, aquilo que foi preparado pelas mãos de tantos médiuns se transforma em uma grande festa.
A bênção e a distribuição dos saquinhos de doces talvez sejam uma das imagens mais bonitas desse encontro. Porque o doce que passa de uma mão para outra é muito mais do que um doce.
É gesto, é partilha, é cuidado, é memória. É a alegria que não fica guardada para si. Naquele momento, o terreiro nos lembra que espiritualidade também pode ser festa. Que o Sagrado também pode se manifestar através do riso. Que a fé não precisa ser sempre solene para ser profunda.
E ao recordar o provérbio bantu trazido por Vovó Cambinda “Os pés das crianças pequenas são os pilares da casa”, podemos compreender que setembro também nos convida a olhar para a nossa própria comunidade.
Que valores estamos deixando como herança?
Talvez a resposta esteja justamente naquilo que vivemos durante setembro: uma comunidade que aprende a cuidar, compartilhar, acolher e celebrar junta.
Setembro termina, mas sua alegria não precisa terminar com ele. Que os Erês nos ensinem a preservar aquilo que a vida adulta tantas vezes tenta nos fazer esquecer: a capacidade de olhar o mundo com encantamento, de repartir o que temos, de rir juntos e de reconhecer que a alegria, quando compartilhada, também é uma forma de cuidado.
Que os pés das nossas crianças continuem encontrando caminhos seguros. E que os pilares da nossa Casa sejam sempre sustentados pelo amor, pela ancestralidade e pela alegria de caminhar juntos.
Salve a Ibejada!
Saravá!



