Saber das GirasGira de Erês
Crescer é aprender a cuidar da criança que continua vivendo dentro de nós
Por Gleison Cardozo · · Leitura de 6 minutos
Hoje a nossa casa se enche de balões e alegria.
É dia de Erê. E quando os Erês chegam, parece que alguma coisa dentro da gente também começa a sorrir.
Porque eles vêm nos lembrar de uma coisa que a vida adulta, às vezes, nos faz esquecer: a vida também precisa ser leve.
Quando somos crianças, a gente brinca com quase tudo.
Um pedaço de papel vira avião.
Uma caixa vira casa.
Um cabo de vassoura vira cavalo.
Uma toalha vira capa de super-herói.
A criança olha para o mundo e não enxerga somente aquilo que ele é.
Ela enxerga aquilo que ele pode vir a ser.
E então nós crescemos.
E começam as cobranças.
Precisamos ser responsáveis.
Precisamos trabalhar.
Precisamos pagar contas.
Precisamos acertar.
Precisamos dar conta.
Precisamos parecer fortes.
E, pouco a pouco, vamos construindo uma armadura.
Aprendemos a esconder o choro.
A controlar o entusiasmo.
A pensar dez vezes antes de fazer alguma coisa.
A ter vergonha de demonstrar alegria.
A ter medo de parecer bobos.
E, sem perceber, começamos a levar a vida tão a sério que esquecemos de viver.
Por isso os Erês são tão importantes.
Porque eles chegam e parecem dizer:
“Tio, tia… desarma um pouquinho.”
“Respira. Sorri. Brinca.”
“A vida não precisa ser pesada o tempo inteiro.”
Existe uma frase muito bonita do pesquisador Stuart Brown:
“O oposto de brincar não é trabalhar. O oposto de brincar é depressão.”
Porque brincar não é simplesmente perder tempo.
Brincar é uma necessidade humana.
É através do brincar que a criança descobre o mundo.
Experimenta. Cria. Erra. Tenta novamente. Inventa.
Se relaciona. Aprende a lidar com o inesperado.
E talvez nós, adultos, ainda precisemos de tudo isso.
Porque brincar é também aprender a olhar para uma realidade difícil e perguntar:
“Será que existe outro jeito?”
E essa pergunta é poderosa.
Porque quando perdemos a capacidade de imaginar outras possibilidades, começamos a acreditar que aquilo que existe hoje é tudo o que pode existir.
E os Erês vêm justamente mexer com essa certeza.
Eles vêm dizer:
“Não é só isso.” “Ainda pode nascer alguma coisa nova.”
Jung falava da existência, dentro de cada adulto, de uma criança eterna.
Uma dimensão profunda de nós mesmos que continua querendo crescer, descobrir, criar e se tornar inteira.
Ele a relacionava à imagem da criança divina.
E essa criança divina está ligada ao renascimento.
À descoberta. Ao entusiasmo. À beleza. À possibilidade.
É aquela parte de nós que ainda consegue olhar para a vida e perguntar:
“E se for possível?”
E talvez seja justamente isso que precisamos recuperar.
Não precisamos voltar a ser crianças.
Não precisamos agir infantilmente.
Não precisamos abandonar nossas responsabilidades.
Precisamos apenas não abandonar completamente aquela parte de nós que sabe se encantar.
Porque existe uma diferença enorme entre amadurecer e endurecer.
Amadurecer é ganhar raízes.
Endurecer é perder a capacidade de florescer.
E os Erês nos convidam a florescer novamente.
Talvez alguns de nós tenham uma criança interior que está cansada.
Uma criança que sofreu.
Que teve medo.
Que precisou amadurecer cedo demais.
Que aprendeu a ficar em silêncio.
Que ouviu que chorar era fraqueza.
Que aprendeu que precisava agradar todo mundo.
Que não teve espaço para simplesmente ser criança.
E essa criança não precisa de julgamento.
Ela precisa de acolhimento.
Por isso, reconectar-se com a criança interior também é um gesto de cura.
É olhar para dentro e dizer:
“Eu não esqueci você.”
“Eu sei que você passou por coisas difíceis.”
“E agora eu estou aqui para cuidar de você.”
Talvez seja isso que significa, espiritualmente, reencontrar a nossa criança divina.
Não é voltar ao passado.
É trazer para o presente aquilo que havia de bonito naquela criança.
A capacidade de confiar.
A capacidade de imaginar.
A curiosidade.
A espontaneidade.
A criatividade.
A capacidade de rir.
A capacidade de começar novamente.
E aqui encontramos a força de Yorí.
Na nossa compreensão da Umbanda Esotérica, a vibração de Yorí nos aproxima justamente dessa força da criança, da alegria, da espontaneidade, da renovação e das possibilidades.
E existe algo muito profundo nisso:
a alegria também é uma força espiritual.
Às vezes, alegria é justamente a capacidade de dizer:
“Eu conheço a dor, mas a dor não vai decidir quem eu sou.”
“Eu passei por dificuldades, mas ainda consigo sorrir.”
“A vida me feriu, mas não conseguiu apagar completamente a minha vontade de viver.”
Isso é força.
Isso é resistência.
Isso é espiritualidade.
Por isso a alegria dos Erês não é uma alegria vazia.
É uma alegria que movimenta.
Que abre.
Que renova.
Que cria possibilidades.
Abdias Nascimento nos deixou uma frase muito bonita:
“Somos contentes erês.”
E talvez essa frase seja também uma afirmação de fé.
Fé na divindade.
Fé na ancestralidade.
Mas também fé na vida.
Fé na possibilidade de transformação.
Fé na capacidade que temos de recomeçar.
Porque a criança divina vive justamente nesse lugar entre o que somos e aquilo que ainda podemos ser.
Porque tem gente que está tão acostumada a controlar tudo que esqueceu como é simplesmente estar presente.
A criança brinca de verdade.
Como escreveu Mário Quintana:
“As crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade.”
Olha que ensinamento bonito!
Quando uma criança brinca, ela está inteira.
Ela não está pensando no ontem.
Não está preocupada com o amanhã.
Ela está ali.
Presente.
Inteira.
E talvez uma das grandes curas que precisamos hoje seja justamente essa:
voltar a estar presentes na nossa própria vida.
Então, hoje, os Erês fazem um convite para nós.
Um convite simples.
Mas profundo.
Volte a brincar.
Brinque com a vida.
Brinque com novas ideias.
Experimente algo diferente.
Permita-se ficar encantado.
Converse com quem você ama.
Faça alguma coisa que não tenha nenhuma utilidade além de lhe trazer alegria.
Porque talvez a nossa criança interior não esteja pedindo para voltar ao passado.
Talvez ela esteja pedindo para ser levada conosco para o futuro.
E essa é uma imagem que eu gostaria que vocês guardassem:
não abandone a criança que você foi.
Porque podemos ser adultos responsáveis sem perder a alegria.
Podemos ter consciência sem perder o encantamento.
Podemos conhecer as dores do mundo sem permitir que o mundo endureça o nosso coração.
Podemos amadurecer sem deixar de brincar.
E talvez essa seja uma das grandes mensagens dos Erês:
crescer não é deixar de ser criança.
Crescer é aprender a cuidar da criança que continua vivendo dentro de nós.
Então eu queria terminar deixando uma pergunta para cada um de vocês.
Uma pergunta para levar para casa.
O que dentro de mim ainda quer brincar?
Que Yorí desperte em nós essa alegria profunda.
Que os Erês possam tocar nossas feridas com doçura.
Que possam devolver leveza ao que ficou pesado.
Que possam abrir caminhos onde nós enxergávamos apenas paredes.
E que possamos aprender com eles que:
a vida é sagrada demais para ser vivida sem alegria.
Hoje, quando os Erês chegarem, não tenha vergonha de sorrir.
Não tenha vergonha de se emocionar.
Não tenha vergonha de sentir alegria.
Deixe a criança divina respirar.
Deixe a vida brincar um pouco dentro de você.
E, se puder, quando sair daqui, leve uma coisa com você:
não deixe que a dureza do mundo roube a criança que ainda sabe acreditar na beleza da vida.
Que os Erês nos ensinem a brincar de verdade.
A amar de verdade.
A viver de verdade.
E a renascer todas as vezes que a vida nos pedir.
Saravá os Erês!
Saravá a criança divina que ainda vive em cada um de nós!
Oni Ibejada!
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