Saber das GirasGira de Caboclos e Caboclas

A justiça que começa dentro de nós

Por Gleison Cardozo · · Leitura de 5 minutos

Hoje nós estamos aqui para mais uma gira de Caboclos. E quando falamos dos Caboclos, falamos de força, de firmeza, de coragem. Em alguns terreiros de umbanda, o dia 30 de setembro é consagrado a Xangô, data em que o Orixá da justiça e dos raios é celebrado por meio de sincretismo religioso com São Jerônimo. Nós do templo consagramos Xangô no dia 24 de junho, nas fogueiras de São João Batista. Porque o sagrado não cabe em uma única folha do calendário.

E talvez seja justamente por isso que, nesta noite, possamos conversar um pouco sobre uma força que também nos chama à firmeza: a Justiça Divina.

Essa associação entre os Orixás africanos e os santos católicos nasceu em um contexto histórico de violência e perseguição religiosa. Durante o período colonial e a escravização, pessoas africanas e seus descendentes encontraram formas de preservar suas crenças, seus símbolos e seus fundamentos diante da imposição do catolicismo.

Por isso, precisamos olhar para o sincretismo também como parte de uma história de resistência e preservação da ancestralidade.

Xangô para as religiões de matriz africana é a força da Justiça Divina, da invencibilidade das pedreiras, dos vulcões e do fogo sagrado, do trovão que faz a terra tremer e do equilíbrio universal.

Mas quando falamos de justiça divina, é importante compreender que não estamos falando da justiça humana. A justiça dos homens muitas vezes falha. Ela pode ser influenciada por interesses, emoções, preconceitos ou limitações. A justiça de Xangô, porém, é diferente. Ela não se deixa enganar pelas aparências. Ela não julga apenas aquilo que é visto. Ela alcança aquilo que está oculto no íntimo de cada consciência.

Podemos pensar naquilo que talvez seja ainda mais difícil: a justiça que precisamos praticar dentro de nós.

Porque quando ouvimos falar em Justiça Divina, muitas vezes imaginamos que Xangô está lá em cima, observando quem errou para aplicar uma sentença.

Mas não é disso que estamos falando. A Justiça Divina não é vingança. Não é castigo. Não é a satisfação de ver alguém sofrer porque nos fez sofrer.

A justiça de Xangô é equilíbrio. É aquilo que coloca cada coisa novamente em seu lugar.

A justiça dos homens pode falhar. Ela pode ser atravessada por interesses, emoções, preconceitos, limitações e até por aquilo que não conseguimos enxergar.

Nós julgamos aquilo que vemos. Xangô, na força simbólica de sua justiça, nos convida a compreender que existe muito mais por trás daquilo que os olhos alcançam.

E isso nos traz uma pergunta incômoda:

Será que somos tão justos quanto acreditamos ser?

Porque é muito fácil reconhecer a injustiça quando ela acontece conosco. Quando alguém nos desrespeita, percebemos rapidamente. Quando alguém nos decepciona, lembramos. Quando alguém erra conosco, sabemos exatamente o que aquela pessoa deveria ter feito.

Mas...

E quando somos nós que erramos?

Quando somos nós que falamos além da conta?

Quando somos nós que julgamos?

Quando somos nós que ferimos alguém?

Quando somos nós que não cumprimos aquilo que prometemos?

Será que utilizamos conosco a mesma régua que utilizamos com os outros?

Essa talvez seja uma das grandes lições de Xangô.

Antes de pedir justiça para aquilo que acontece fora de nós, precisamos ter coragem de olhar para aquilo que acontece dentro de nós.

E aqui o Caboclo pode nos ajudar. Porque o Caboclo é força que se posiciona.

Mas posicionamento não é agressividade.

Firmeza não é dureza.

Coragem não é ausência de medo.

E justiça não é punição.

O Caboclo nos ensina que precisamos ter firmeza para reconhecer aquilo que precisa ser transformado.

Às vezes queremos que a espiritualidade retire uma situação difícil da nossa vida. Mas talvez aquela situação esteja nos ensinando alguma coisa. Queremos que Xangô faça justiça contra alguém. Mas talvez Xangô esteja nos perguntando:

“E você? O que tem feito com aquilo que recebeu?”

Porque existe uma lei muito antiga, conhecida por diferentes tradições, que podemos chamar de lei da colheita.

Nós plantamos. E um dia, colhemos.

Mas é importante compreender isso sem uma visão de castigo.

Não é: “Você fez isso, então agora vai sofrer.”

Não. A espiritualidade não precisa ser compreendida pela lógica da vingança. A colheita pode ser compreendida como aprendizado.

Aquilo que fazemos produz consequências. Nossas escolhas constroem caminhos. Nossas palavras produzem marcas. Nossos sentimentos orientam atitudes. E nossas atitudes constroem relações. Por isso, quando alguma coisa retorna para nós, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Por que Deus está fazendo isso comigo?”

Talvez seja:

“O que essa experiência está me ensinando?”

Essa mudança de pergunta muda tudo. Porque tira a gente do lugar de vítima permanente e nos devolve a responsabilidade pela própria caminhada. E responsabilidade é uma palavra muito importante quando falamos de justiça.

Responsabilidade não significa carregar culpa por tudo. Significa reconhecer aquilo que está ao nosso alcance transformar. Não podemos controlar o que o outro pensa. Não podemos controlar o que o outro sente. Não podemos controlar todas as circunstâncias da vida. Mas podemos escolher como vamos responder a elas.

Podemos escolher não devolver violência com violência. Podemos escolher não alimentar uma fofoca. Podemos escolher pedir desculpas. Podemos escolher reconhecer um erro. Podemos escolher recomeçar. Podemos escolher fazer diferente.

E talvez seja aí que a força do Orixá encontre a força dos Caboclos. Porque a espiritualidade não existe para nos tornar pessoas perfeitas. Ela existe para nos tornar mais conscientes.

Mais conscientes do que fazemos.

Mais conscientes do que sentimos.

Mais conscientes das consequências das nossas escolhas.

Mais conscientes daquilo que ainda precisamos transformar.

Que assim seja.

Okê Caboclos!

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