Saber das GirasGira de Pretas e Pretos Velhos
O amor que se transforma em atitude
Por Gleison Cardozo · · Leitura de 7 minutos
Boa noite, meus irmãos e minhas irmãs.
Hoje é um dia muito especial na Umbanda popular, o Dia de São Benedicto, o santo dos Pretos. Nascido na Itália em 1526 e filho de escravos africanos que ganharam a liberdade. Benedito foi irmão leigo franciscano e ficou conhecido por sua grande humildade, sabedoria e caridade com os pobres.
Hoje nós abrimos a primeira gira de Pretos e Pretas Velhas do mês de outubro na força de mais esse Simiromba.
E talvez não exista maneira melhor de começar um novo mês do que nos lembrando de uma coisa que parece tão simples, mas que, na prática, é uma das tarefas mais difíceis da nossa existência:
Amar o próximo.
Porque falar de amor é fácil. Difícil é amar quando o outro pensa diferente de nós. Difícil é respeitar quando não concordamos. Difícil é ter paciência quando estamos cansados.
Difícil é compreender alguém quando não conhecemos a batalha que essa pessoa está enfrentando.
E é justamente aí que os nossos Velhos nos ensinam.
Eles não costumam falar do amor como uma coisa grandiosa, distante da gente, cheia de palavras bonitas.
O amor do Preto Velho é simples. É a mão estendida. É a palavra mansa. É o silêncio quando o silêncio é necessário. É o conselho dado sem humilhar. É a firmeza sem violência. É a paciência com quem ainda está aprendendo.
É olhar para uma pessoa e, antes de perguntar “o que ela fez?”, perguntar: “O que será que ela está enfrentando?”
Porque nós quase nunca sabemos a história inteira de quem cruza o nosso caminho. Às vezes, encontramos uma pessoa irritada e não sabemos que ela passou a noite sem dormir. Encontramos alguém distante e não sabemos a dor que ela está carregando.
Encontramos alguém que errou e não sabemos quantas vezes aquela pessoa já tentou acertar. Encontramos alguém que parece forte e não imaginamos o quanto ela está cansada.
Por isso, meus irmãos, ter empatia é uma forma de amar. Respeitar é uma forma de amar. Não julgar precipitadamente é uma forma de amar.
Ajudar é uma forma de amar. E, muitas vezes, até aquilo que parece pequeno pode transformar o dia e quem sabe a vida de alguém.
Uma palavra pode levantar uma pessoa. Um abraço pode devolver coragem. Uma orientação pode evitar um sofrimento. Um gesto de solidariedade pode devolver esperança.
E talvez seja isso que nossos Pretos e Pretas Velhas nos ensinam tão profundamente: não precisamos fazer coisas extraordinárias para fazer o bem.
Precisamos aprender a fazer o bem nas pequenas coisas. Porque o mundo não está precisando apenas de grandes discursos sobre amor.
O mundo está precisando de pessoas que pratiquem o amor. Vivemos em um tempo que ameaçam nossa sobrevivência, em que parece que estamos cada vez mais separados.
As pessoas se ofendem com facilidade. Julgam com rapidez. Cancelam umas às outras. Transformam diferenças em inimigos.
E, muitas vezes, esquecemos uma coisa fundamental: do outro lado da nossa opinião existe uma pessoa.
Uma pessoa que sente. Uma pessoa que sofre. Uma pessoa que tem medo. Uma pessoa que deseja ser respeitada.
Uma pessoa que, assim como nós, está tentando encontrar um caminho nessa vida. E é nesse mundo que a nossa fé precisa fazer diferença.
Porque de que adianta vir ao terreiro, ouvir uma bela palavra, tomar um passe do guia, receber um abraço de um Preto Velho, sentir a energia da gira... e sair daqui exatamente igual?
A espiritualidade não pode ser apenas aquilo que sentimos. Ela precisa ser aquilo que fazemos. A fé precisa atravessar a porteira do terreiro e chegar à vida.
Chegar em casa. Chegar no trabalho. Chegar nas nossas relações. Chegar na maneira como tratamos quem pensa diferente. Chegar na maneira como tratamos quem está em situação de vulnerabilidade. Chegar na maneira como tratamos aqueles que não podem nos oferecer absolutamente nada em troca.
Porque é muito fácil ser gentil com quem gostamos. O desafio espiritual é aprender a manter a nossa humanidade diante de quem nos contraria.
E talvez seja aí que esteja uma das maiores lições dos nossos Velhos: não deixar que a dureza do mundo endureça o nosso coração.
O mundo pode ser hostil. Mas nós não precisamos reproduzir essa hostilidade. Se alguém espalha raiva, que nós não sejamos mais uma fonte de raiva. Se alguém espalha preconceito, que nós sejamos resistência.
Se alguém perdeu a esperança, que a nossa presença possa lembrar que ainda existe caminho.
Talvez seja justamente nesses momentos que a gente precise se lembrar mais uns dos outros. Se aproximar dos nossos, cuidar dos nossos, conversar, acolher e não deixar que a frustração nos faça perder aquilo que nos trouxe até aqui.
A gente continua vibrando amor, esperança, respeito e dignidade.
É assim que nos tornamos agentes de transformação. Não precisamos transformar o mundo inteiro de uma vez. Talvez a nossa tarefa seja transformar o pequeno mundo que passa pela nossa frente todos os dias.
A pessoa que trabalha conosco.
O vizinho.
O familiar.
O desconhecido que encontramos na rua.
Alguém que pede ajuda.
Alguém que precisa simplesmente ser ouvido.
E também aqueles que estão dentro desta própria corrente.
Porque amar o próximo começa muito perto.
Começa aqui.
Começa entre nós.
Começa na capacidade de olhar para o irmão ao lado e reconhecer que ele também está caminhando, aprendendo, errando e tentando evoluir.
Não somos uma corrente porque somos perfeitos.
Somos uma corrente porque estamos juntos no caminho da transformação.
E os nossos Pretos e Pretas Velhas sabem disso.
Eles não chegam para apontar o dedo.
Chegam para ensinar.
Não chegam para nos lembrar apenas dos nossos erros. Chegam para nos mostrar que podemos fazer diferente.
Não chegam para dizer que a vida é fácil. Chegam para nos ensinar a caminhar com dignidade mesmo quando a vida aperta.
E talvez por isso a presença de um Preto Velho tenha essa força tão particular.
Porque diante deles nós podemos respirar. Podemos baixar a guarda. Podemos reconhecer nossas fraquezas.
E ouvir uma palavra que não vem carregada de julgamento, mas de sabedoria.
“Meu fio, pregue o bem.”
“Minha filha, faça o bem.”
“Tenha fé, mas faça a sua parte em defesa do amor.”
E essa última talvez seja uma das grandes lições para nós:
fé sem atitude não transforma a realidade.
Podemos ter fé em Deus, nos Orixás, nos nossos Guias e na espiritualidade.
Mas a nossa fé precisa produzir obras.
Precisa produzir cuidado com todos.
Precisa produzir respeito pelos que sofrem preconceito.
Precisa produzir solidariedade aos mais necessitados.
Precisa produzir transformação.
Porque não basta pedir luz.
É preciso também ser luz na vida de alguém.
Não basta pedir proteção.
É preciso também proteger quem está vulnerável.
Não basta pedir amor.
É preciso também oferecer amor.
O convite que os nossos Velhos nos fazem nesta primeira gira de outubro é exatamente:
Que nós sejamos agentes de transformação em um mundo que tantas vezes parece ter esquecido de ser humano.
Que a nossa presença seja melhor do que a nossa ausência.
Que as pessoas que cruzarem o nosso caminho possam encontrar em nós um pouco de paz.
Que a nossa palavra não seja instrumento de ferida.
Que as nossas mãos estejam disponíveis para ajudar.
Que os nossos olhos aprendam a enxergar além das aparências.
Que o nosso coração não se acostume com a dor do outro.
E que a gente nunca perca a capacidade de se importar.
Porque, no final das contas, talvez seja isso que os nossos Velhos vêm nos ensinar há tanto tempo:
Amar é cuidar. Amar é respeitar. Amar é fazer.
E quando o amor vira atitude, ele deixa de ser apenas uma palavra bonita e começa, de verdade, a transformar vidas.
Que neste mês de outubro possamos sair daqui com uma pergunta para carregar conosco:
Que os nossos Pretos e Pretas Velhas nos ensinem a simplicidade de amar.
Que nos ensinem a paciência.
Que nos ensinem a humildade.
Que nos ensinem a servir sem esperar reconhecimento.
E que, ao final de cada dia, possamos olhar para a nossa própria caminhada e dizer:
“Hoje eu fiz alguma coisa para tornar a vida de alguém um pouco melhor.”
Se fizemos isso, meus irmãos... já valeu a caminhada.
Que Pai João de Aruanda nos abençoe.
Que nossos Pretos e Pretas Velhas nos cubram com sua sabedoria, sua paciência e sua força.
E que a nossa fé não fique apenas dentro deste terreiro.
Que ela caminhe conosco para o mundo.
Saravá São Benedito!
Saravá os Pretos e Pretas Velhas!
Adorei as Almas!
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