Saber das GirasGira de Pretas e Pretos Velhos
Ninguém consegue caminhar para frente carregando tudo aquilo que já passou
Por Junior Cremonez · · Leitura de 4 minutos
Hoje eu venho falar um pouco sobre os Pretos-Velhos.
Não somente pelo cachimbo, pelo café, pelo jeito manso de falar ou pelo “meu fio”. Quero falar sobre aquilo que essa presença representa para nós.
Porque, quanto mais a gente vive, mais entende a sabedoria dos nossos velhos.
Vou contar uma história.
Dizem que certa vez um homem chegou diante de um Preto-Velho muito cansado da vida. Começou a contar tudo que estava acontecendo: as decepções, as injustiças, as perdas, as pessoas que o machucaram e tudo aquilo que ele carregava dentro do peito.
O Preto-Velho ficou sentado, apenas ouvindo.
Quando o homem terminou, o velho colocou uma xícara de café na frente dele.
— Tome seu café, meu fio.
O homem tomou e ficou esperando o conselho. Então o Preto-Velho perguntou:
— Meu fio, esse café está pesado?
— Não, vô.
E o velho respondeu:
— Então por que o senhor está carregando tanta coisa?
O homem ficou em silêncio.
E o Preto-Velho continuou:
— Tem coisa que a gente precisa viver, tem coisa que precisa doer e tem coisa que precisa ser entendida. Mas também tem coisa que precisa ser deixada para trás. Ninguém consegue caminhar para frente carregando tudo aquilo que já passou.
E eu acho que essa é uma das grandes lições dos nossos Pretos-Velhos.
Eles conhecem a dor, mas não vivem presos nela. Conhecem a injustiça, mas não ensinam vingança. Conhecem a perda, mas continuam ensinando fé.
E talvez o mais bonito seja isso: mesmo conhecendo o sofrimento, continuam ensinando amor.
Porque é fácil ser bom quando a vida está boa. Difícil é continuar sendo bom depois de ser ferido. É fácil falar de perdão quando não fomos machucados. Difícil é perdoar quando realmente doeu.
E os Pretos-Velhos nos ensinam justamente que aquilo que fizeram conosco não precisa decidir quem nós vamos ser.
Dentro da Umbanda, eles representam sabedoria, ancestralidade, caridade, acolhimento e orientação.
E eles não precisam levantar a voz. Eles sentam. Escutam. Esperam. E quando falam, muitas vezes é uma palavra simples. Mas é uma palavra que fica. Às vezes a gente só vai entender muito tempo depois.
E eu penso muito naquele banco onde o Preto-Velho se senta. Um banco simples, mas que já recebeu tantas histórias. Quantas pessoas chegaram ali chorando? Quantas chegaram sem esperança? Quantas chegaram achando que não tinham mais saída? E quantas levantaram dali um pouco mais leves?
Talvez o problema não tivesse desaparecido. Mas alguma coisa mudou dentro daquela pessoa. Ela voltou a acreditar que conseguia continuar.
E talvez seja isso que nossos velhos façam por nós.
Eles não prometem uma vida sem dificuldades. Eles nos ensinam a atravessar as dificuldades sem perder a nossa essência.
Nos ensinam paciência, humildade, respeito, silêncio, gratidão e fé.
E nos fazem lembrar que espiritualidade não é somente pedir. É também aprender. É ter coragem de olhar para dentro e perguntar:
“O que eu preciso aprender com aquilo que estou vivendo?”
Porque, às vezes, a gente chega querendo que o Preto-Velho tire um peso das nossas costas. E ele nos mostra que talvez aquele peso já pudesse ter sido colocado no chão há muito tempo.
E isso também é cura.
Então, se hoje alguém aqui estiver cansado, se estiver carregando alguma coisa que ninguém sabe, talvez a mensagem do nosso velho seja simples:
“Meu fio, você não precisa carregar tudo sozinho.”
E talvez seja exatamente isso que alguém precisava ouvir hoje.
Por isso, quando estivermos diante de um Preto-Velho, que a gente não enxergue apenas aquela figura sentada. Que a gente enxergue a experiência, a paciência, a sabedoria, a caridade, a ancestralidade e o amor que eles representam.
E que a gente aprenda com eles uma coisa muito importante: podemos ser feridos sem deixar de amar. Podemos sofrer sem nos tornar a própria dor. Podemos perder sem perder a nossa fé. E podemos cair quantas vezes forem necessárias, desde que tenhamos coragem de levantar e continuar.
Porque o café acaba. A gira termina. Mas aquilo que um Preto-Velho coloca dentro do nosso coração pode ficar para a vida inteira.
Que nossos velhos continuem nos ensinando a caminhar com mais humildade, mais fé, mais paciência e, principalmente, mais amor.
Saravá os Pretos-Velhos.
Adorei as Almas.
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