Saber das GirasGira de Cangaceiras e Cangaceiros
É preciso ter coragem de olhar para dentro
Por Gleison Cardozo · · Leitura de 7 minutos
Boa noite, meus irmãos e minhas irmãs.
Na gira de hoje quero falar de coragem. Característica principal do arquétipo dos Cangaceiros e Cangaceiras.
Coragem não como ausência de medo, mas como disposição para enfrentar a própria história, assumir as escolhas e abrir novos caminhos.
Hoje iniciamos as giras de setembro. E setembro chega trazendo consigo uma imagem muito bonita: a aproximação da primavera.
A primavera é aquele momento em que a natureza nos lembra que a vida está sempre encontrando uma maneira de recomeçar.
Depois do período de recolhimento, vêm as flores.
Depois do frio, novos brotos aparecem.
Depois de um tempo de aparente silêncio, a natureza volta a mostrar sua força.
E talvez essa seja uma boa mensagem para nós hoje:
A vida também pode florescer novamente.
Mas para isso, muitas vezes, precisamos ter coragem de olhar para dentro.
Setembro também nos convida a lembrar do cuidado com a vida. E quando falamos em cuidar da vida, não estamos falando apenas de cuidar do corpo ou de evitar aquilo que nos faz mal.
Cuidar da vida também é cuidar da nossa história.
É olhar para aquilo que vivemos e perguntar:
O que eu estou fazendo hoje com tudo aquilo que fizeram comigo ontem?
Porque todos nós carregamos histórias.
Algumas bonitas.
Outras dolorosas.
Algumas que gostaríamos de repetir.
Outras que, se pudéssemos, apagaríamos.
Há pessoas que cresceram com a ausência de um pai.
Outras tiveram uma mãe que não soube oferecer o carinho de que precisavam.
Há quem tenha sido ferido dentro da própria família.
Há quem tenha sofrido bullying na escola, rejeição, abandono, humilhação, violência, preconceito.
Há quem tenha aprendido desde cedo que precisava ser forte porque ninguém estaria ali para segurá-lo.
E tudo isso deixa marcas.
Nós não devemos diminuir a dor de ninguém.
Aquilo que vivemos na infância, aquilo que recebemos ou deixamos de receber, aquilo que aprendemos dentro de casa, na escola, tudo isso ajuda a construir quem somos e explica muita coisa.
Mas existe um momento da vida em que precisamos compreender uma coisa difícil:
explicar não é o mesmo que justificar.
O que aconteceu conosco pode explicar muitos dos nossos medos, das nossas inseguranças, das nossas dificuldades de relacionamento, das nossas escolhas.
Mas chega um momento em que precisamos assumir uma responsabilidade que ninguém pode assumir por nós:
a responsabilidade pelo que fazemos com aquilo que recebemos da vida.
E talvez essa seja uma das maiores formas de liberdade.
Porque se eu passar a vida inteira dizendo:
“Eu sou assim porque meu pai fez isso.”
“Eu sou assim porque minha mãe não me deu aquilo.”
“Eu sou assim porque fui abandonado.”
“Eu sou assim porque me machucaram.”
Talvez eu esteja permitindo que pessoas que me feriram no passado continuem decidindo quem eu sou no presente.
E isso é muito pesado.
Não podemos escolher tudo aquilo que nos aconteceu.
Mas podemos, pouco a pouco, escolher o que faremos com aquilo que nos aconteceu.
É aí que entra a coragem.
E hoje estamos em uma gira de Cangaceiros e Cangaceiras.
E quando pensamos nessa falange, podemos compreender a força desses arquétipos como uma representação de coragem, resistência, firmeza e enfrentamento das adversidades.
O Cangaceiro não é aquele que não sente medo.
É aquele que aprende a caminhar mesmo quando a estrada é difícil.
E talvez seja justamente isso que a espiritualidade queira nos ensinar hoje:
Coragem não é não ter feridas.
Coragem é não permitir que as feridas determinem para sempre o caminho.
Tem gente que passou tanto tempo sobrevivendo que esqueceu que também pode viver.
Tem gente que aprendeu tanto a se defender que já não sabe mais receber carinho.
Tem gente que foi tão machucada que passou a machucar.
Tem gente que foi abandonada e hoje abandona antes de ser abandonada.
Tem gente que aprendeu que precisava controlar tudo porque, um dia, não teve controle sobre nada.
E precisamos olhar para essas coisas com compaixão.
Não para nos condenarmos.
Mas para nos compreendermos.
Porque ninguém se cura dizendo:
“Eu sou uma pessoa horrível.”
A cura começa quando conseguimos dizer:
“Eu reconheço aquilo que fizeram comigo. Reconheço aquilo que isso provocou em mim. E agora vou escolher o que fazer com essa história.”
Isso é responsabilidade.
Isso é amadurecimento.
Isso é liberdade.
E talvez seja esse o grande convite desta noite.
Não precisamos negar o nosso passado para construir um futuro diferente.
Podemos olhar para trás e dizer:
“Foi difícil.”
“Doeu.”
“Eu não merecia aquilo.”
“Eu gostaria que tivesse sido diferente.”
Mas depois precisamos olhar para frente e perguntar:
“E daqui para frente, o que eu vou fazer?”
Porque a vida não nos pede para esquecer.
Ela nos pede para transformar.
E transformação não acontece de uma hora para outra.
Às vezes, reconstruir a própria vida significa simplesmente aprender a dizer “não”.
Às vezes significa pedir ajuda.
Às vezes significa afastar-se de uma relação que nos adoece.
Às vezes significa perdoar — não necessariamente para voltar a conviver, mas para deixar de carregar aquela pessoa dentro de nós.
Às vezes significa reconhecer que precisamos mudar.
E mudar pode ser assustador.
Porque o conhecido, mesmo quando dói, muitas vezes parece mais seguro do que o desconhecido.
Mas pensem na natureza.
Quando chega a primavera, a árvore não pergunta:
“Será que eu consigo florescer novamente?”
Ela simplesmente começa.
Um pequeno broto.
Depois outro.
E, pouco a pouco, a vida reaparece.
Talvez seja assim conosco também.
Não precisamos reconstruir a vida inteira hoje.
Talvez hoje seja apenas o dia de plantar uma pequena decisão.
Uma decisão de se cuidar.
De procurar ajuda.
De pedir perdão.
De estabelecer um limite.
De abandonar um hábito.
De voltar a sonhar.
De parar de se punir.
De olhar para si mesmo com um pouco mais de misericórdia.
Porque existe uma frase que precisamos guardar:
A dor não podemos evitar completamente.
Mas o destino podemos reinventar todos os dias.
E reinventar o destino não significa acreditar que tudo estará perfeito.
Significa entender que, mesmo carregando marcas, ainda podemos escolher nossos próximos passos.
Talvez você não tenha escolhido a família em que nasceu.
Não escolheu muitas das coisas que aconteceram com você.
Não escolheu algumas perdas.
Não escolheu algumas dores.
Mas hoje você pode escolher como quer caminhar.
E essa escolha pode começar aqui.
Nesta gira.
Neste momento.
Talvez os Cangaceiros e Cangaceiras nos convidem justamente a isso:
levantar a cabeça, firmar os pés no chão e seguir.
Não seguir fingindo que nada aconteceu.
Mas seguir sabendo que aconteceu — e que você sobreviveu.
Seguir sabendo que ainda existem caminhos.
Que ainda existem pessoas.
Que ainda existe amor.
Que ainda existe espiritualidade.
Que ainda existe vida.
E que enquanto existe vida, existe possibilidade de transformação.
Então, neste mês de setembro, quando a primavera se aproxima, que possamos fazer uma primavera dentro de nós.
Que possamos retirar algumas folhas secas.
Que possamos abrir espaço para novos brotos.
Que possamos cuidar melhor da nossa própria existência.
E, principalmente, que possamos compreender que ser forte não é carregar tudo sozinho.
Às vezes, ser forte é admitir:
“Eu preciso de ajuda.”
Às vezes, ser forte é dizer:
“Isso me machucou.”
E às vezes, a maior demonstração de coragem é olhar para o espelho e dizer:
“Eu não posso mudar o que fizeram comigo. Mas posso escolher o que vou fazer com aquilo que fizeram comigo.”
Que os Cangaceiros e Cangaceiras nos tragam hoje essa força.
A força para enfrentar.
A coragem para mudar.
A sabedoria para reconhecer nossos limites.
E a humildade para pedir ajuda quando for necessário.
Que possamos sair daqui não apenas mais protegidos, mas também mais conscientes de que a nossa história não precisa terminar no capítulo em que fomos feridos.
Nós podemos escrever outros capítulos.
E talvez essa seja uma das maiores bênçãos que a vida nos oferece:
a possibilidade de recomeçar.
Que setembro seja um mês de cuidado.
De coragem.
De renovação.
E que a primavera encontre espaço dentro de cada um de nós.
Saravá aos Cangaceiros e Cangaceiras!
Que assim seja.
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