Saber das GirasGira de Pretas e Pretos Velhos

A cura acontece quando deixamos de ser quem éramos

Por Gleison Cardozo · · Leitura de 6 minutos

Boa noite, Irmãos e Irmãs de fé,

Antes de iniciarmos nossos trabalhos, gostaria de convidar todos a uma breve reflexão.

Agosto, na Umbanda, é o mês em que nos aproximamos da força de Obaluaiê, o Senhor dos Ciclos, da Cura e da Evolução. Muitas vezes pensamos na cura apenas como o desaparecimento de uma doença, mas Obaluaiê nos ensina que a verdadeira cura é transformação. É deixar morrer aquilo que já não serve para que uma nova vida possa nascer.

Um dos elementos mais conhecidos desse Orixá é a pipoca, o deburù, ou como carinhosamente chamamos em nossa tradição, a Flor do Velho.

Há um profundo ensinamento nesse elemento tão simples.

Antigamente a flor do velho era preparada apenas com milho e areia branca, sem qualquer gordura. O milho não abria pela força do óleo, mas pela temperatura correta da areia limpa. Depois, havia ainda o cuidado de separar cuidadosamente cada pipoca da areia para que pudesse ser oferecida ao Orixá e compartilhada com as pessoas.

Nada nesse ritual é por acaso.

A areia branca representa um campo limpo, fértil e equilibrado. O calor representa as provas da vida. E a pipoca representa o ser humano que aceita passar pela transformação.

Hoje gostaria de compartilhar um texto da escritora Martha Medeiros, que utiliza justamente esse simbolismo.

“Sabe aquele milho que sobra na panela e se recusa a virar um floquinho branco, macio e alegre? Se chama piruá. Tem muita gente piruá neste planeta. Gente que não reage ao calor, que não desabrocha. Fica ali, duro, triste, inútil pro resto da vida. Não cumpre sua sina de revelar-se, de transformar-se em algo melhor. Não vira pipoca, mantém-se piruá. E um piruá emburrado, que reclama que nada lhe acontece de bom. Pois é… Perdeu a oportunidade de entregar-se ao fogo, tentou se preservar, danou-se. Com isso quero mostrar para aqueles que têm vocação para piruá que o importante na vida é reagir às emoções e não se manter frio, fechado, feito um grão de milho que não honrou seu destino.”

Que bela imagem traz esse texto.

Os Pretos e Pretas Velhas nos ensinam exatamente isso, mas de maneira muito própria: com paciência, humildade e sabedoria.

Eles nunca prometem uma vida sem dificuldades. Pelo contrário. Quem conversa com um Preto Velho percebe que eles falam das dores com muita serenidade. Sabem que ninguém amadurece sem atravessar o fogo da experiência.

O fogo da vida não existe para nos destruir. Existe para revelar quem realmente somos.

É curioso perceber que o milho, quando entra na panela, talvez imaginasse que o calor fosse o seu fim. Mas justamente aquele calor que parece ameaçador é o que permite que ele revele toda a sua beleza escondida.

Assim também acontece conosco.

Às vezes enfrentamos uma perda, uma doença, um conflito familiar, uma decepção, uma mudança inesperada. Nossa primeira reação costuma ser resistir, endurecer, fechar o coração. E fechar o coração nem sempre significa deixar de amar alguém. Muitas vezes significa deixar de confiar, deixar de acreditar na vida, desconfiar de todas as pessoas, perder a esperança ou levantar muros para não sofrer novamente. É quando passamos a dizer: “não quero mais me envolver”, “não vou mais perdoar”, “não vou mais acreditar”, “não vou mais servir”. Pensamos que estamos nos protegendo, mas, na verdade, estamos aprisionando a nós mesmos. Um coração fechado impede que a dor saia, mas também impede que o amor entre. Impede que a tristeza vá embora, mas também impede que a alegria encontre espaço. É como um grão de milho que, com medo do calor, permanece duro. Não sofre a transformação, mas também não revela a beleza que já existia dentro dele.

Mas o ensinamento de Obaluaiê e dos Pretos Velhos é outro.

Eles nos dizem: não tenha medo da transformação.

A cura não acontece quando tudo volta a ser como era.

A cura acontece quando deixamos de ser quem éramos.

É por isso que Obaluaiê é Senhor dos Ciclos. Cada fase da vida pede que uma parte antiga de nós seja deixada para trás. O orgulho precisa morrer para nascer a humildade. A mágoa precisa morrer para nascer o perdão. O medo precisa morrer para nascer a confiança.

Os Pretos Velhos sabem disso porque carregam em sua própria história a memória da dor transformada em sabedoria.

Eles não ficaram “piruás”.

Os Pretos e Pretas Velhas nos ensinam justamente o contrário. Eles conhecem a dor como poucos. Carregam em sua memória espiritual a experiência da injustiça, da separação, da violência e das perdas. Ainda assim, quando se apresentam diante de nós, não trazem amargura, mas acolhimento; não trazem ressentimento, mas conselho; não distribuem revolta, mas esperança. Eles nos mostram que a verdadeira força não está em endurecer o coração, mas em permitir que ele permaneça sensível sem perder a serenidade. Um coração curado não é um coração que nunca sofreu; é um coração que sofreu, aprendeu e escolheu continuar amando.

As injustiças que viveram não endureceram seus corações. Ao contrário, fizeram nascer neles uma imensa capacidade de acolher, aconselhar e amar.

E talvez esse seja o maior milagre da cura espiritual.

Não é apagar as marcas da caminhada.

É transformar as marcas em fonte de luz para ajudar outras pessoas.

Há ainda um detalhe muito bonito no preparo da Flor do Velho.

Depois que a pipoca estoura, ela precisa ser cuidadosamente separada da areia.

Isso também nos ensina que, depois das provas, é preciso discernimento.

Nem toda lembrança da dor precisa continuar grudada em nós.

Aprendemos com a experiência, mas não precisamos carregar para sempre o peso do sofrimento.

Os Pretos Velhos sempre nos convidam a soltar o excesso de culpa, de ressentimento e de apego ao passado.

Eles costumam dizer, cada um ao seu modo, que quem segura carvão pensando em atingir outra pessoa é quem primeiro queima as próprias mãos.

Nesta noite, diante da força de Obaluaiê e da presença amorosa dos Pretos e Pretas Velhas, façamos uma pergunta sincera ao nosso coração:

Em que área da minha vida eu ainda estou sendo um piruá?

Onde tenho resistido às mudanças?

Que medo me impede de florescer?

Que orgulho ainda me endurece?

Que dor já cumpriu seu papel e precisa ser transformada em aprendizado?

Que possamos confiar que o calor das experiências não veio para nos destruir, mas para nos revelar.

Que a Flor do Velho nos recorde que a verdadeira cura acontece de dentro para fora.

E que os Pretos e Pretas Velhas nos inspirem a aceitar os ciclos da vida com humildade, paciência e fé, porque toda transformação conduzida pelo amor de Deus nos aproxima daquilo que realmente fomos criados para ser.

Atotô Obaluaiê!

Saravá os nossos amados Pretos e Pretas Velhas!

Adorei as Almas!

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