Saber das GirasGira de Ciganas e Ciganos

Os espíritos que atuam na umbanda trazem cada um a sua história e identidade própria

Por Gleison Cardozo · · Leitura de 5 minutos

Boa noite, irmãos e irmãs de fé.

Hoje quero falar de ancestralidade, cultura e apropriação cultural. Vamos entender um pouco sobre essa falange de ciganos e ciganas que trabalha na Umbanda, identificados como pertencentes à linha do oriente.

Isso passa primeiramente pela compreensão sobre o próprio nome Cigano e as saudações que utilizamos na Umbanda.

De onde veio o termo “cigano”? Isso dialoga muito bem com o trabalho de ancestralidade e descolonização do olhar:

Antes de falar sobre um povo, precisamos aprender a escutar como esse povo fala de si mesmo.

Na Europa medieval, povos que hoje são agrupados sob a denominação “ciganos” chegaram vindos do Oriente, especialmente do subcontinente indiano. Isso reverberou na Umbanda e até hoje algumas casas chamam de linha do oriente.

Como sua origem era desconhecida para os europeus, surgiram diversas interpretações equivocadas. Uma delas associava essas populações ao Egito. Em diferentes regiões da Europa apareceram denominações relacionadas a essa ideia, como Egyptians, em inglês antigo Gypsy, de Egitanos, surgiram os termos semelhantes em outras línguas como Gitanos em espanhol ou do grego bizantino atzinganos os Zíngaros em italiano. Daí se desenvolveu a palavra que, em português, chegou como “Cigano”.

Rom é uma autodenominação utilizada por diversos grupos romani e, em determinadas línguas romani, rom está relacionado a “homem” ou “pessoa” e também à identidade coletiva. Roma é o plural de Rom em muitos contextos. Romani pode designar o povo, sua língua e aspectos relacionados à sua cultura. É, inclusive, uma forma bastante utilizada internacionalmente para se referir ao conjunto dessas populações.

Mas existe uma questão importante: nem todas as comunidades que historicamente são chamadas de “ciganas” se identificam necessariamente como Rom. Existem diferentes grupos e autodenominações, como Sinti, Calon, Manush, entre outras. Por isso, dizer simplesmente que “o nome correto é Romani” pode acabar apagando essa diversidade.

O mais respeitoso é compreender que não existe uma única identidade cigana homogênea. E os espíritos que atuam na umbanda trazem cada um a sua história e identidade própria.

O mesmo podemos entender com a expressão Opchá! com o sentido ritual de “Salve!”, ou “Salve o povo cigano!”. Tão popularmente usada na Umbanda. Optchá teria chegado ao Brasil por meio de famílias ciganas provenientes da Hungria, sendo uma interjeição utilizada naquele contexto linguístico e cultural. Com o tempo, a expressão passou a ser percebida no Brasil como uma espécie de grito de entusiasmo, força, celebração ou incentivo.

E foi justamente nesse processo de apropriação cultural que “Optchá” acabou sendo incorporado pela Umbanda, especialmente nas manifestações relacionadas às entidades da falange dos Ciganos.

A expressão Optchá, portanto, pode ser perfeitamente compreendida como parte do vocabulário ritual que a Umbanda brasileira construiu em torno dessa falange, sem precisarmos afirmar que ela seja originalmente uma palavra sagrada ou Romani.

E há uma bela reflexão aí: assim como “cigano” é um nome atribuído de fora e depois apropriado em diferentes contextos, “Optchá” também mostra como uma expressão pode atravessar culturas, ganhar novos significados e acabar sendo apresentada como ancestral mesmo quando sua história é muito mais complexa.

O mesmo podemos afirmar sobre “Arribabô, Arriba!”

Na Umbanda, “Arribabô, Arriba!” é uma das saudações tradicionalmente utilizadas para a falange dos Ciganos. Sua origem linguística, porém, não deve ser apresentada como uma expressão comprovadamente pertencente à língua romani.

A palavra “arriba”, de origem ibérica, remete à ideia de “para cima”, “avante”, “seguir”. No contexto ritual da Umbanda, a expressão foi incorporada como uma saudação de força, movimento e alegria.

Assim, podemos ouvir em “Arribabô, Arriba!” um chamado simbólico: levantar, seguir em frente, não permanecer parado diante da vida e abrir caminhos para aquilo que precisa se transformar.

Mais do que atribuir uma origem cigana que não podemos comprovar, é importante reconhecer que a Umbanda brasileira também criou e ressignificou seus próprios vocabulários rituais.

Ancestralidade é mais do que conhecer nomes, símbolos, palavras ou rituais antigos. É compreender de onde vêm os conhecimentos que recebemos, quem os preservou, quem pagou o preço para que eles chegassem até nós e que responsabilidade temos ao transmiti-los.

Na perspectiva ancestral, não somos indivíduos isolados. Somos continuidade. Recebemos algo daqueles que vieram antes e, ao mesmo tempo, somos responsáveis por aquilo que entregaremos aos que virão depois. Por isso, honrar a ancestralidade exige memória, respeito e responsabilidade.

Às vezes repetimos palavras porque aprendemos que elas são “antiga”, “cigana”, “africana”, “indígena” ou “ancestral”, sem nunca termos investigado sua origem. Podemos utilizá-las dentro de uma tradição umbandista, mas isso não significa automaticamente que sejam palavras ancestrais.

Podemos continuar saudando os Ciganos dessa maneira, trabalhando com essas entidades, utilizando símbolos e cantos próprios da nossa tradição umbandista — mas podemos também reconhecer:

“Aquilo que fazemos na Umbanda é uma construção religiosa brasileira e não necessariamente uma reprodução fiel da cultura histórica Romani.”

Isso é muito bonito porque permite que a Umbanda seja reconhecida como Umbanda, sem precisar inventar uma antiguidade ou uma origem que não possui.

Isso não enfraquece a fé. Antes de perguntar se temos o direito de usar um símbolo de determinada cultura, deveríamos perguntar se estamos dispostos a conhecer, respeitar e ouvir as pessoas que são herdeiras daquela cultura.

Honrar uma tradição não significa congelá-la no passado. Significa conhecer sua história, reconhecer seus autores, respeitar seus descendentes e assumir responsabilidade pela maneira como a transmitimos.

A Umbanda trabalha com muitas falanges espirituais associadas a diferentes povos, culturas e ancestralidades. Aqui aprendemos a respeitar a história. Uma coisa é dizer: “essa é uma saudação utilizada na nossa tradição umbandista”. Outra, bem diferente, é afirmar: “Essa é uma antiga palavra sagrada do povo Romani.”

Durante muito tempo, povos ciganos foram vítimas de preconceito e marginalização, cabe à Umbanda fazer essa reparação histórica, porém atenta para não romantizar a imagem construída dos ciganos. É possível admirar uma cultura e, ao mesmo tempo, não reproduzir estereótipos sobre ela.

Viva o povo Cigano!

Salve as entidades ciganas que se apresentam na Umbanda.

Opchá!

Textos com direitos autorais reservados, podem ser utilizados em parte ou na íntegra. A fonte sempre será citada.

Acessibilidade

Tamanho do texto
Tema