Saber das GirasGira de Pretas e Pretos Velhos

A natureza nos ensina que todo renascimento começa antes de aparecer

Por Gleison Cardozo · · Leitura de 6 minutos

Boa noite, meus irmãos e minhas irmãs.

Hoje eu queria começar falando de uma coisa muito simples: o tempo.

Nós estamos chegando a um momento muito bonito do nosso calendário. Amanhã, às 21h05, acontece o equinócio de primavera no hemisfério sul. Mas gostaria de trabalhar hoje a chegada da primavera não apenas como uma mudança no calendário, mas como uma imagem espiritual de renovação: a natureza nos lembrando que a vida não é linear, que existem tempos de recolhimento, silêncio, morte simbólica e, depois, novos começos. E a presença das Pretas e Pretos Velhos pode trazer justamente a sabedoria de quem aprendeu a respeitar o tempo das coisas.

A primavera é aquele momento em que a natureza nos anuncia, mais uma vez, que um ciclo está mudando.

Depois do recolhimento, vem o florescimento.

Depois dos dias mais frios, a vida começa a se mostrar novamente.

As árvores começam a brotar, as flores aparecem, os pássaros cantam, os rios seguem seu caminho...

E talvez exista uma sabedoria muito grande nisso.

Porque a natureza não tem pressa.

A semente não olha para a árvore ao lado e diz:

“Por que eu ainda não floresci?”

Ela simplesmente respeita o seu tempo.

Primeiro, ela fica escondida na terra.

Depois, rompe a própria casca.

Cria raízes.

E só então começa a subir em direção à luz.

E isso é uma coisa que nós, seres humanos, muitas vezes esquecemos.

Queremos florescer sem criar raízes.

Queremos começar de novo sem terminar aquilo que precisa ser encerrado.

Queremos a primavera sem passar pelo inverno.

Mas a vida não funciona assim.

A natureza nos ensina que todo renascimento começa antes de aparecer.

E talvez seja por isso que a ancestralidade sempre tenha observado tanto os ciclos da natureza.

Antes de termos relógios, calendários e aplicativos para marcar o tempo, o ser humano já olhava para o céu.

Observava o dia sucedendo a noite.

A lua crescendo e diminuindo.

A chuva chegando e partindo.

As estações se sucedendo.

A semente desaparecendo dentro da terra para, depois, transformar-se em árvore.

E, olhando para o ritmo do mundo, o ser humano começou a compreender a própria existência.

Porque nós também somos feitos de ciclos.

Há momentos em que precisamos caminhar.

Há momentos em que precisamos parar.

Há momentos em que precisamos falar.

E há momentos em que precisamos silenciar.

Há momentos em que precisamos segurar.

E há momentos em que precisamos soltar.

E os Pretos Velhos sabem muito sobre isso.

Porque a sabedoria dos mais velhos não está apenas na quantidade de coisas que eles viveram.

Está na capacidade de entender o tempo das coisas.

O Preto Velho não tem pressa.

Ele escuta.

Ele observa.

Ele sopra a fumaça devagar.

Ele prepara seu café.

Ele mexe sua erva.

E muitas vezes, antes de responder aquilo que perguntamos, ele nos ensina uma coisa ainda mais importante:

ter calma para ouvir aquilo que a vida está tentando nos dizer.

Às vezes chegamos aqui querendo uma resposta imediata.

“Pai, quando minha vida vai mudar?”

“Quando minha situação vai melhorar?”

“Quando aquilo que eu desejo vai acontecer?”

E talvez o Preto Velho nos respondesse:

“Meu fio... primeiro deixa a terra preparar a semente.”

Porque existem coisas que não estão atrasadas.

Estão amadurecendo.

Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Talvez algumas coisas que nós chamamos de perdas tenham sido, na verdade, encerramentos necessários.

Talvez alguns afastamentos tenham aberto espaço.

Talvez algumas dores tenham nos obrigado a criar raízes mais profundas.

E talvez algumas versões de nós mesmos precisassem morrer para que outra pudesse nascer.

Porque a semente precisa deixar de ser semente para se tornar árvore.

E isso não é fracasso.

Isso é transformação.

Antonio Vivaldi, quando compôs As Quatro Estações, transformou justamente essa passagem dos ciclos em música.

Na Primavera, podemos ouvir a natureza despertando: o canto dos pássaros, a água correndo, a chegada das tempestades, os raios e trovões.

É interessante pensar nisso.

Porque até a primavera tem tempestade.

Até aquilo que floresce enfrenta vento.

Até aquilo que renasce precisa atravessar dificuldades.

A primavera não significa ausência de problemas.

Significa presença de vida.

E talvez seja essa a reflexão que precisamos levar para dentro de nós neste novo ciclo.

Não esperar que a vida fique perfeita para começar novamente.

Não esperar que todas as feridas desapareçam para voltar a sorrir.

Não esperar que tudo esteja resolvido para sentir alegria.

Às vezes, a alegria chega justamente enquanto algumas coisas ainda estão sendo reconstruídas.

E eu acho bonito pensar que o renascimento também pode ser alegre.

Nós falamos muito de transformação como se toda transformação precisasse nascer da dor.

Mas não.

Também podemos mudar porque descobrimos que merecemos viver de outra maneira.

Podemos mudar porque aprendemos.

Porque amadurecemos.

Porque perdoamos.

Porque compreendemos.

Porque finalmente percebemos que carregar determinadas coisas já não faz sentido.

E talvez seja esse o convite desta primavera:

o que você está pronto para deixar para trás?

Que pensamento já não precisa morar dentro de você?

Que culpa já cumpriu sua função?

Que medo já pode descansar?

Que história você continua contando sobre si mesmo, mesmo sabendo que já não é mais aquela pessoa?

Que parte de você está pedindo passagem para nascer?

Os Pretos Velhos nos ensinam que não precisamos ter vergonha dos nossos invernos.

Todos nós temos períodos de recolhimento.

Todos nós já passamos por noites compridas.

Todos nós já tivemos momentos em que parecia que nada estava acontecendo.

Mas, debaixo da terra, a semente estava trabalhando.

E talvez você também esteja.

Talvez esse período difícil tenha criado raízes que você ainda não consegue enxergar.

Por isso, hoje, eu queria convidar cada um que está aqui a olhar para a própria vida com um pouco mais de carinho.

Não como quem cobra:

“Por que eu ainda não consegui?”

Mas como quem pergunta:

“O que está nascendo em mim?”

Que você possa entrar nesse novo ciclo com menos cobrança e mais presença.

Com menos medo e mais confiança.

Com menos peso e mais alegria.

Que você possa permitir que algumas coisas terminem.

Que outras comecem.

Que novas flores apareçam.

E que você não tenha medo de florescer.

Porque a árvore não pede desculpas por dar frutos.

A flor não pergunta se alguém vai gostar da sua cor.

O pássaro não espera autorização para cantar.

A vida simplesmente acontece.

E talvez hoje Pai João, com sua sabedoria de Preto Velho, pudesse nos lembrar:

“Meu fio, a vida não pede que você seja forte o tempo todo. Ela pede que você continue caminhando.”

Então caminhemos.

Com nossas cicatrizes.

Com nossas histórias.

Com nossa ancestralidade.

Com aquilo que aprendemos.

Mas também com espaço para aquilo que ainda vamos descobrir.

Que esta primavera possa encontrar dentro de nós um lugar fértil.

Um lugar onde a esperança possa criar raízes.

Onde a alegria possa nascer.

Onde o amor possa florescer.

E onde a nossa própria vida possa nos surpreender novamente.

Porque, às vezes, depois de tanto tempo olhando para aquilo que morreu...

é preciso levantar os olhos para perceber aquilo que está nascendo.

Que venha um novo ciclo.

Que venha a primavera.

Que venha a alegria.

E que a gente tenha coragem de florescer.

Saravá às Pretas e Pretos Velhos!

Adorei as Almas!

Textos com direitos autorais reservados, podem ser utilizados em parte ou na íntegra. A fonte sempre será citada.

Acessibilidade

Tamanho do texto
Tema