Ecos de AruandaNº 01

Oxóssi, o guardião das matas

Janeiro, mês de Oxóssi, o Orixá da criatividade, das matas e protetor do ecossistema. A edição que inaugura o Ecos de Aruanda, com a samambaia, a Roda de Ancestralidade e o terreiro online.

Leitura de 14 minutos

Ilustração de Oxóssi, de chapéu verde, com arco e flecha, cercado de folhagens da mata

Editorial

Pedimos licença a Exú, Orixá da comunicação para lançar o “ECOS DE ARUANDA”, informativo de Umbanda.

Após a realização das Giras Virtuais, 2021 nasce com uma nova esperança e traz consigo a necessidade de outras adaptações e mudanças. Com o distanciamento social o mundo digital ganhou cada vez mais força e com a Umbanda não seria diferente. Nos tempos atuais há uma nova demanda, ainda mais desafiadora, que é conseguir manter o engajamento no ambiente online. Os tambores atuais ecoam para que os terreiros possam desenvolver suas atividades à distância. É fato que existe uma nova necessidade da comunicação digital.

É nesse contexto que nasce a edição nº 01 do Informativo do Templo Escola Pai João de Aruanda. Janeiro mês de Oxóssi, o Orixá da criatividade, do ócio, das matas e protetor do ecossistema. É sob essa luz que te convidamos a essa prazerosa leitura.

A proposta é que a cada mês possamos ecoar a voz da Umbanda cada vez mais, trazendo informação e conhecimento aos frequentadores da Casa de Pai João de Aruanda.

Boa Leitura!

Jardim Sagrado

Folhas de samambaia iluminadas em meio à mata
Samambaia

As ervas estão presentes em todas as religiões, em diversos rituais, desde sempre, e a Umbanda é a religião da natureza.

Uma erva é atribuída a um orixá por analogia vibratória. Energia que está presente na vibração do orixá com a energia que está presente na vibração da erva. Uma mesma erva pode ser atribuída a vários orixás. Não pela sua cor, seu formato ou seu visual, e sim pela vibração. Afinal, os orixás estão ligados entre si.

Para o uso correto de uma erva é necessário saber: o nome da erva e o verbo atuante. Verbo é o poder realizador divino, é o poder de transformação dela. O que movimenta ou ativa o poder realizador é o propósito, a intenção. Uma mesma erva pode proporcionar mais de um poder realizador.

Nessa edição em homenagem a Oxóssi vamos falar da samambaia, muito encontrada nas matas ciliares e florestas. Erva regida por Vênus e pelo elemento Terra. Muito utilizada por Caboclos, são bastante conhecidas por absorver as energias do ambiente e das pessoas, é ótima para se ter em casa, ela atua como proteção e na manutenção das energias positivas. Suas folhas secas podem ser usadas em defumações e banhos. Favorece a sabedoria, a criatividade, atrai prosperidade, fartura e abundância.

Sabendo de tudo isso, estaremos mais qualificados para preparar nossos banhos, para entender o uso em uma defumação, entender o uso das ervas em um amaci ou firmeza.

Saudação

Okê Arô! Okê Caboclos!

Durante a diáspora muitos negros escravizados que cultuavam Oxóssi não sobreviveram aos rigores do tráfico negreiro e do cativeiro, mas, ainda assim, o culto foi preservado no Brasil e em Cuba pelos sacerdotes sobreviventes. Oxóssi se transformou, no Brasil, num dos orixás mais populares, tanto no candomblé, onde se tornou o rei da nação Keto, quanto na Umbanda.

Na tradição Iorubá, compondo o importante panteão dos deuses africanos, Oxóssi é o orixá da caça, das florestas, dos animais, da fartura, do sustento. Está em todas as refeições, pois é ele quem provê o alimento.

No dia 20 de janeiro é celebrado seu dia em sincretismo ao santo católico São Sebastião, o santo mártir que ao ser condenado sobreviveu por sua fé às diversas flechadas que atingiram seu corpo.

Em nossa casa, onde cultuamos a Umbanda esotérica, o entendemos como linha - conjunto hierarquizado de entidades que trabalham na faixa de frequência vibratória de cada orixá. Isso dentro da Umbanda sempre foi muito discutido, e até o presente momento não existe um consenso sobre o assunto. No livro - Os Orixás na Umbanda e no Candomblé – os autores relatam que:

Erroneamente costuma-se chamar linha de Umbanda toda e qualquer manifestação espiritual. Determinadas pessoas costumam enquadrar espíritos que em vida pertenceram a determinadas categorias profissionais ou viveram em determinadas regiões como pertencentes a uma certa linha de Umbanda. Existem ainda os que consideram as mil e uma subdivisões existentes em uma mesma linha como sendo também uma linha de Umbanda. Como exemplo podemos citar a linha de Oxóssi tais como: linha das matas, linha de Pena Branca, linha de Caboclo. linha de Jurema, etc.

— Os Orixás na Umbanda e no Candomblé

O arquétipo das entidades que se manifestam através da mediunidade de psicofonia (incorporação) na linha de Oxóssi são as Caboclas e os Caboclos, bem como os Boiadeiros - chamados Caboclos de Couro.

Os atributos dessa linha são a nutrição, a energia vital e o equilíbrio fisiológico, além do crescimento e da renovação. Pela associação com o índio caçador, Oxóssi é tido como o caçador de almas. Seus pontos marcantes são a fartura e criatividade. Hoje, Oxóssi é quem protege aquelas pessoas que saem todos os dias para o trabalho, para trazer o sustento.

Oxóssi também está de modo geral na arte. Sua influência está presente no ato da pintura de um quadro, na confecção de uma escultura, na composição de uma música, nos passos de uma dança, nas misturas de cores, na escrita de um poema, de um romance, de uma crônica.

Oxóssi é principalmente a proteção à natureza e a tudo aquilo que a terra pode nos ofertar. É o respeito ao ecossistema que fazemos parte. Quando nos afastamos da natureza, fugimos das nossas origens, da nossa essência. Quando a destruímos, estamos matando a nós próprios. Quando cultivamos a admiração por cada detalhe, nos aprofundamos do milagre da vida da qual somos todos inteiramente parte. Não existe separação! Nós somos a terra.

Os nomes dos orixás costumam estar intimamente ligados à sua personalidade ao seu propósito de ser e seus feitos. O nome Oxóssi significa “o guardião noturno do povo”, “caçador ou guardião do povo”.

Oxóssi e seus correspondentes

Cor
Verde
Dia da Semana
Quinta-feira
Planeta
Vênus
Metal
Cobre
Signos
Touro e Libra
Domínios da Natureza
As matas, as florestas
Domínios da vida
Criatividade, nutrição, energia vital
Pedra
Quartzo Rosa
Plantas
Samambaia, cipó caboclo, malva

Quando nos afastamos da natureza, fugimos das nossas origens, da nossa essência. Quando a destruímos, estamos matando a nós próprios. Não existe separação! Nós somos a terra.

Roda de Ancestralidade

Pai Joaquim de Aruanda

Orixá não se prende!

A Roda de ancestralidade acontece na Casa de Pai João em atendimento ao pedido da Preta Velha Vovó Cambinda, que pediu para que essa roda de conversa fosse realizada com os filhos da casa em um momento de ensinamento e aprendizagem nas Giras de desenvolvimento. Assim como acontecia nas rodas de conversa com os velhos griôs.

Griôs, meus filhos, são aqueles velhos sábios que reuniam os mais novos para contar suas histórias, e passar o conhecimento ancestral na Mãe África. Não existiam livros como se têm agora. Pela repetição das histórias o conhecimento era repassado de forma oral. Esse momento aqui foi feito para retomar essa prática, para vocês terem a oportunidade de conversar com esses Pretos Velhos da casa no dia de esclarecimento. Eu irei aproveitar esse momento para contar mais uma história para todos vocês.

Desenho em preto e branco de uma árvore sobre o globo terrestre, com raízes que se espalham pelos continentes

Certa vez, esse velho que gosta muito de meditar no silêncio do deserto, lugar onde as estrelas parecem tocar o chão, a unir o Orum ao aiyê (o céu a terra) e criar o espaço propício para firmar a cabeça e meditar, ouvi meu nome ser chamado. Logo veio o cheiro do cachimbo e do café. Cheiro gostoso de terreiro que fez esse velho se aproximar do aparelho receptivo, porém que se encontrava a chorar.

- Meu filho por que você está tão triste e chorando?

- Pai Joaquim eu sempre amei os Orixás, mas estou muito preocupado porque eu não consigo fazer as firmezas dos meus pais. Eu vim de outra casa, e lá meus assentamentos foram recolhidos quando saí de lá.

Ele falou isso aos prantos, e tocando seu rosto e limpando as lágrimas respondi o seguinte.

- Meu filho, acho que você não entendeu o que é Orixá, por isso tem medo de fazer suas firmezas. Quando esse velho conheceu Orixá foi por meio da sua iaiá. Esse velho já disse a vocês, não veio da África, pois nasceu já nessas terras, mas minha avó veio e cultuava Orixá da forma como se cultuava lá. Meu filho, a gente é muito preso a forma, que pode não ser uma só. Cada canto desse mundo tem uma forma de cultuar. Parece que só tem na África, mas cada lugar achou seu modo e maneira de se adaptar.

- Então meu velho me mostre, o que é Orixá?

- Meu filho Orixá não tem o que explicar. Orixá não se explica, Orixá apenas se sente. A avó desse velho dizia que Orixá está na natureza. Esse velho muito bobo, ainda menino, achava que se ele pegasse o rio na mão, ele prenderia o Orixá até ele escorrer pelos dedos. Mas é a ideia de menino né meus filhos. (risos)

- Mas Orixá não está no rio, no mar?

- Não só ali meu filho. Orixá está principalmente dentro da gente. Orixá é aquilo que eu sinto do Criador. Aquilo que eu sinto da voz de Zambi. Aquilo que eu sinto na vibração. Então meu filho, você pode até assentar da forma que lhe foi ensinado, conforme seu babá mandou fazer e depois mandou recolher. Mas ele não recolheu o seu Orixá, assim como esse velho quando não conseguiu ao prender com as mãos o rio.

- Então meu filho não importa a casa que você vá trabalhar, não importa onde você está. Seu Orixá estará sempre presente dentro de você. E não em um altar. Filho quando fazemos as oferendas estamos buscando os elementos da força desse Orixá mas não o próprio Orixá, porque Orixá não tem forma. Orixá é sentido em vibração. E esse filho foi aprendendo essa maneira de cultuar, ficando mais tranquilo. As lágrimas foram cessando, ele foi acalmando e entendendo a partir daquele dia, que não era um babalorixá que iria aprisioná-lo. Que a vibração de seu Orixá não era naquele assentamento, mas era na forma e no respeito que ele iria tratá-lo e reconhecê-lo dentro de si.

Filhos, é assim que eu quero que vocês cheguem a essa Casa. Não com a curiosidade de saber quem rege o “Ori” (Cabeça) dos meus filhos. Pensem o porquê esses Orixás estão aproximando, porque você está sentindo a vibração diferente. Para que serve essa vibração? Porque irão sentir a necessidade de vibrar junto com o Orixá. É assim que vai funcionar.

Fazer as firmezas é muito importante, mas se dentro do coração não tiver a resposta, você ainda não sabe o que é Orixá.

Ele vibra na natureza e trabalha com os quatro elementos (terra, água, fogo e ar). Para cada orixá existe um elemento mais forte. É natural que nesses campos você consiga perceber sua força potencializada com maior sensibilidade, mas é dentro do peito que ele tem que vibrar.

Mucuiu Zambi meus filhos.

Umbanda tem Fundamento

O terreiro online

Todos já ouvimos falar nos tratamentos espirituais a distância, porém com o advento da pandemia de Covid 19 que acometeu o planeta, a grande maioria das Tendas de Umbanda, para dar continuidade aos seus trabalhos precisou migrar para o mundo online.

Através do seu pensamento, a espiritualidade vai ao socorro daquela pessoa, não importa a distância. Pode estar lá do outro lado do mundo, para os guias da luz não há distância. Se a pessoa pede com fé vai ser atendida da mesma forma, a lógica que se desencadeia no tratamento à distância não difere da realizada presencialmente.

Os ritos como a oração podem melhorar as perspectivas de cura dos pacientes, mesmo aqueles em situação mais grave. Têm estudos mostrando uma associação positiva entre as pessoas que têm o ritual de orar, de fazer orações e uma melhora nos resultados dos tratamentos de saúde. Intencionar orações em muitas das vezes, o benefício mentalizado ao próximo retorna a quem pede, automaticamente está recebendo um tratamento.

Lembramos que o tratamento espiritual NÃO SUBSTITUI o tratamento médico tradicional. As energias puras recebidas podem trazer a cura, mas muitas vezes os problemas surgem para que aprendamos algo ou para vencermos algum karma trazido de outra encarnação. Se o aprendizado ainda não aconteceu, haverá um alívio, mas não a cura total. Então lembre-se de manter a esperança e a confiança nos guias que lhe amparam e nos guias e médicos que amparam a Casa de Pai João no plano espiritual. Se for o momento, a cura virá!

Como melhor aproveitar a gira virtual

No momento em que você entra na gira virtual, a espiritualidade já está trabalhando por você. Com as proteções que realizamos, nem toda energia tem permissão para entrar na sua casa.

Enquanto participa dos rituais, evite coisas que te tirem a atenção, conversas desnecessárias, visitas a sites e redes sociais, pensamentos negativos. Prefira o silêncio e a oração. Muitas vezes, basta uma intuição para encontrar a solução de seus problemas. Porém, se estiver com a mente ocupada com futilidade e negatividade, dificilmente captará as inspirações da espiritualidade.

Estejam receptivos às vibrações elevadas. Lembre-se de que a espiritualidade é invisível aos olhos da carne, mas sentida no coração. E o seu lar é um espaço sagrado. Não é local para fofocas, intrigas, discussões, julgamentos e nem qualquer outro assunto de baixa moralidade. Mesmo com o seu microfone fechado, cante, dê a sua contribuição à energia da sua casa.

Ali mesmo as demandas podem ser quebradas, a força de vontade crescer e os caminhos se abrirem. Entenda que nenhum elemento do ritual está ali à toa, tudo possui o seu propósito e seu fundamento.

Que nunca esqueçamos quão maravilhosa é esta oportunidade de nos encontrarmos com os guias da Umbanda. Eles que já experimentaram as mais diversas peripécias da vida e atingiram níveis de sabedoria e iluminação ainda tão distantes de nós e dispõem-se, regularmente, a vir em Terra para nos instruir, proteger, fortalecer.

Não desperdicem a oportunidade de cura que acontece nessas giras, Não deixe de manter um copo com água para ser fluidificada com o remédio que você necessita.

Na Estante

O livro essencial de Umbanda desvenda os conceitos e tradições da Umbanda, possibilitando ao leitor se aprofundar de uma maneira clara e objetiva nos principais elementos dessa religião.

O autor é umbandista e presidente da Associação Brasileira de Escritores Afrorreligiosos, a Abeafro.

O Livro Essencial de Umbanda

Título
O Livro Essencial de Umbanda
Autor
Ademir Barbosa Junior
Editora
Universo dos livros
Ano
2014

Salve o Ponto

O Rei das Matas

Sou filho do guerreiro de uma flecha só
Sou filho de Oxossi caçador
E todo bom guerreiro não anda só
Tem sempre um irmão merecedor
O Rei das Matas. O meu protetor
O Rei das Matas, O meu protetor
Sarava meu pai Oxossi
Sua bênção meu senhor
Oke Arô

Sou filho do guerreiro de uma flecha só
Sou filho de Oxossi caçador
Ele é mensageiro do Pai maior
E cumpre sua missão com muito amor
O Rei das Matas, O meu protetor
O Rei das Matas, O meu protetor
Sarava meu pai Oxossi
Sua bênção meu senhor
Oke Arô

Letra: Sandro Luiz / Marcus Musk

Sala de Cura

Escalda-pés são um tratamento muito antigo, que consiste na infusão de ervas medicinais na água para mergulhar os pés. Conheça um pouco dos benefícios dessa tradição trazida pelas Benzedeiras.

RELAXAMENTO E REDUÇÃO DE ESTRESSE: Os pés constituem uma parte do corpo humano que muito se desgasta; afinal, eles precisam nos sustentar durante o dia. O escalda-pés é um excelente método para fornecer o relaxamento que você tanto necessita!

ALÍVIO PARA O CORPO INTEIRO: Você sabia que os pés possuem aproximadamente 70 mil terminações nervosas ligadas a cada órgão do corpo? Isso significa que o relaxamento dos pés pode influenciar no bem-estar e no tratamento de alguma dor e/ou lesão.

REDUÇÃO DO INCHAÇO NAS PERNAS: Esse inchaço ocorre devido ao acúmulo de líquido nos pés, tornozelos e pernas. Para amenizá-lo, o escalda-pés é uma ótima alternativa, pois o processo ativará a circulação sanguínea. A aplicação externa da água é um dos mais fáceis e mais satisfatórios meios de regular a circulação do sangue.

COMO PREPARAR UM BOM ESCALDA-PÉS

1 - Basta encher uma bacia com água morna, colocar um bom número de bolinhas de gude ou pedras de rio (um elemento de fricção que estimulará os pontos reflexos) e acrescente algumas gotas de óleo essencial ou ervas frescas.

2 - Utilize ervas mornas pois elas carregam o poder de equilibrar o padrão energético, use a sálvia, alfazema, hortelã ou alecrim. Se está em equilíbrio e deseja bons fluídos use as ervas frias como pétalas de rosas, anis, jasmim, malva, louro, melissa, manjericão.

3 - Um dos primeiros cuidados que você não pode deixar de tomar para experimentar os benefícios do escalda-pés é verificar a temperatura da água. Você pode checar antes de iniciar o processo, utilizando as próprias mãos e vendo se o calor está ou não em um nível suportável.

4 - Depois de terminar o processo, é muito importante ter uma toalha para que a área dos pés fique muito bem seca.

Pés mergulhados em uma bacia com água, ervas e flores lilases, ao lado de toalhas enroladas e bolinhas de gude

Expediente

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Orientação Espiritual
Pai João de Aruanda
Direção / Pesquisa
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Projeto Gráfico / Pesquisa
Gleison Cardozo
Pesquisa / Revisão
Dilene Nunes
Jornalista Responsável
Gleison Cardozo - DRT DF-8266

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