Ecos de AruandaNº 05
Pretos e Pretas Velhas, as Santas Almas Benditas
Em maio, a festa dos Pretos e Pretas Velhas: a sabedoria de um velho Griot, o rosário de lágrimas de Nossa Senhora e os patuás terapêuticos. Adorei as Almas!
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Editorial
“Benditos sejam aqueles que nos oferecem tempo e luz. Que nos provocam paz, e ainda fazem tudo, tudo para gente dar certo. Benditos sejam aqueles que nos mostram que dias ruins são passageiros e dias bons são maiores. Muito maiores”. Nessa fala da escritora Rosa de Saron Morais saudamos as Santas Almas Benditas.
A Princesa Isabel assinou a Lei Áurea em 13 de maio de 1888, mas a data não é utilizada como o principal marco da luta dos negros por sua liberdade. É na verdade, muito mais uma forma de contestar a ideia de que a sanção da Lei Áurea aboliu oficialmente o trabalho escravo no Brasil e, resolveu todos os males da escravidão. Sabemos que a história contada pela ótica dos brancos é romantizada, o protagonismo da ação e o contexto em que ela se deu não foi bem um ato heroico e põe panos quentes na história da escravatura do Brasil. A abolição da escravatura é resultado muito mais de “um processo de resistência e de luta”. A abolição não garantiu nenhum tipo de inclusão, integração social, econômica e cultural. Umbanda é uma religião de reparação onde espíritos de homens e mulheres negras podem se manifestar livremente.
Esta edição de maio foi feita com muito carinho para falarmos dos Pretos e Pretas Velhas que encantam a Umbanda com sua sabedoria e humildade. São esses psicólogos do plano astral que nos acolhem nos momentos mais difíceis, e consolam com sabedoria nossas dores. São esses seres iluminados que nos ensinam com paciência a valorizar as coisas simples da vida, a agradecer tudo que já possuímos, e com os olhos vendados não percebemos.
Fazer parte de um Templo regido por Pai João de Aruanda é uma honra para todos nós, seus discípulos. Cumprir a missão de acolher e levar a luz da Umbanda a todas as pessoas que necessitam torna-se mais leve e prazeroso quando temos a orientação dessas benditas Almas.
Ecos de Aruanda convida seus leitores e leitoras a conhecerem um pouco mais sobre esses seres iluminados. Mais uma vez agradecemos por todas as críticas e sugestões recebidas para a construção desse informativo.
Boa leitura!
Jardim Sagrado
Lágrimas de Nossa Senhora
Conhecida também como Painço adlay, Capim Rosário ou Capiá. As Lágrimas de Nossa Senhora que tem por nome científico (Coix lacryma-jobi L.) tem sua origem na Asia, com mais de 30 espécies espalhadas pelo mundo. O nome da planta está ligado a tradição na confecção de rosários ou terços religiosos.
Não tem como falar de Capim Rosário e não lembrar de Preto Velho. Com suas guias de contas, rosários e brajás feitos com contas simples encontradas em um capim, que também representam a humildade perante os terços confeccionados com pedras preciosas dos senhores e senhoras de engenho, nos libertando das amarras dos egos. Podemos dizer ser uma “erva do bem” que brota e cresce de forma espontânea nos quintais afora. Essa erva poderosa tem várias funções ritualísticas, sobre tudo isso estamos falando das sementes (frutos), que vão do branco até o preto, passando pelo cinza e castanho.
Podem também ser consumidas como alimento, na forma de farinha no preparo de pães, biscoitos e mingaus, pois sua farinha é muito nutritiva, feita a partir das lágrimas sem a casca (envoltório rígido). O chá das folhas é um forte diurético e combate o inchaço e infecções urinárias, espasmos musculares, febres e reumatismos. Porém, não deve ser usada por gestantes e nutrizes.
Mas pouco se fala das folhas do Capim Rosário, que para nós em banhos, amacis e defumações fazem dessa planta uma incrível aliada nas curas e regenerações de doentes. Sua energia luminosa e colorida que vai do branco cristalino até o lilás profundo, passando por várias ‘nuances’ de verde e amarelo, a habilitam às mais variadas ações benéficas.
Classificada como uma erva morna (equilibradora). Suas folhas podem ser colocadas embaixo da cama de crianças com sono agitado e pesadelos constantes, deixada por quarenta dias e depois retiradas e devolvidas à natureza. O banho com as folhas é excelente para convalescença e desenvolvimento mediúnico.

Saudação
O dia 13 de maio para a Umbanda é dia de festa de Pretos e Pretas Velhas. Dia de agradecer e reverenciar aqueles guias que estão sempre disponíveis para nos acolher. A quem todos têm coragem de expor suas dores, suas dificuldades, sem se sentirem intimidados ou diminuídos. São espíritos que, embora se encontre num grau elevadíssimo da escala espiritual, apresenta-se numa roupagem simples, inspirando confiança e semeando conselhos úteis, promovendo a cura das mazelas espirituais e auxiliando o consulente no caminho da paz e da harmonia.
É dentro deste universo fraterno da Umbanda que os Pretos e Pretas Velhas passaram a ocupar um lugar de respeito e admiração, pois representam a sabedoria e a experiência adquiridas ao longo dos anos. Sua generosidade, carinho e aconselhamento, quando incorporados em seus médiuns, remete-nos à figura dos nossos vovôs e vovós.
Muitos tiveram suas vidas marcadas pelo longo período de escravidão que mancha o passado do nosso País. Foi mais de 350 anos escravizando os negros, onde se estima que 75% dos cinco milhões de negros e negras trazidos da África pelo tráfico negreiro, quando sobreviviam a travessia, acabaram a mercê de todo tipo de atrocidades em terras brasileiras.
Apesar de nos contarem sobre suas experiências de dor e sofrimento, para que isso jamais se repita na humanidade, são completamente desvencilhados de qualquer tipo de ódio ou rancor. Nos ensinando lições de perdão e superioridade moral e evolução espiritual.
Na Umbanda, muitas entidades, que não vivenciaram a escravidão quando estiveram encarnados no orbe físico, apresentam-se na forma de Pretos e Pretas Velhas, como exemplo de humildade e fraternidade universal. Muitas vezes, trata-se de médicos, doutores da lei e cientistas que se manifestam nas sessões com esse arquétipo.
Apesar de já terem sidos criticados e considerados “espíritos inferiores” por aqueles que por preconceito desconheciam seus feitos, apresentam-se assim representando a humildade, um dos princípios de ação da Umbanda juntamente com a simplicidade e a pureza. A humildade é condição primordial à evolução espiritual, pois é ela que nos coloca na condição de humanos, falhos e necessitados de crescimento espiritual. Lembrando sempre que a humildade se pratica pelo sacrifício do orgulho e da vaidade, pela consciência da condição inferior e da necessidade de aprendizado, aperfeiçoamento, caridade e altruísmo.
A umbanda é uma religião de reparação as injustiças sociais e ao preconceito racial. Foi fundada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, no dia 15 de novembro de 1908, quando esta entidade (guia) foi incorporada pelo médium Zélio Fernandino de Moraes. Naquele dia, nascia uma religião genuinamente brasileira, na qual os espíritos de indígenas e de negros foram acolhidos para exercerem a sua missão evolutiva, na prática da caridade junto aos necessitados.
O Templo Escola Pai João de Aruanda tem como regente um Preto Velho, o que nos orgulha muito. Chamamos carinhosamente como a Casa de Pai João, pois ali é o local de acolhimento fraterno onde todos aqueles, encarnados ou desencarnados, que necessitem de auxílio serão atendidos por esses vovôs e vovós.
Desde sua concepção extrafísica a casa de Pai João já havia sido pensada no Plano Espiritual com as características que foram orientadas por um conselho de Pretos e Pretas Velhas aos seus dirigentes quando da formação da casa. Em todas as comunicações mediúnicas sempre ficou muito claro que essa tenda deveria cumprir às três dimensões espirituais propostas pela Corrente Astral de Umbanda no acolhimento aos mais necessitados.
O templo deveria atender as necessidades para a comunicação entre os dois planos e o desenvolvimento da liturgia à luz dos fundamentos da Umbanda. Um local de paz construtiva, conforto e assistência espiritual.
Um lugar de respeito mútuo, de harmonia e fraternidade. Onde todos os que ali convivem possam exercer na prática os ensinamentos do mestre Jesus. Que fosse um ponto de encontro de almas que buscam a conexão com o criador e sua evolução moral. Ao mesmo tempo que nos foi informado que à essa casa bateriam as portas almas cansadas, desiludidas, sofridas. Muitas perdidas em si mesmas, sem rumo e em busca da própria espiritualidade. Era preciso preparar também um hospital de almas, onde todos os necessitados encontrassem acolhimento aos seus sofrimentos físicos, emocionais e espirituais. Não menos importante foi a orientação de que ali também deveria ser criada uma escola para o ensino e esclarecimento sobre os fundamentos da Umbanda.
Cada palavra e ensinamento desses Pretos e Pretas Velhas foi e é fundamental para a melhor condução da Casa. Sua sabedoria ancestral é a base para a nossa filosofia de vida.
Assim, comemoramos com muito bolo de fubá de milho e café, em saudação a cada Preto e Preta Velha desta Casa.
Adorei as Almas!


Elementos Correspondentes
- Cor
- Preto e Branco.
- Elemento
- Terra.
- Dia da Semana
- Segunda-feira.
- Astro regente
- Saturno.
- Domínios da vida
- Sabedoria, Humildade, Ancestralidade.
- Pedras
- Cristais de quartzo.
- Ervas
- Capim rosário, arruda, guiné, folha de café, folha de fumo, barba de velho.
- Flores
- Rosas Brancas, Rosa menina, crisântemos.
- Elementos ritualísticos
- Cachimbo, rosário ou terço, figa de guiné, café.
Roda de Ancestralidade
Pai João de Aruanda
A sabedoria de um velho Griot
As narrativas trazidas nas Rodas de Ancestralidade por Pretos e Pretas Velhas contam histórias de luta, busca pela liberdade, persistência e coragem contadas por aqueles que há muito tempo já aprenderam com as mazelas da vida. Muitos desses contos são narrativas curtas e com linguagem simples, que transmitem ensinamentos e memórias da cultura de vários povos da África, e de suas vivências já em terras brasileiras. Esses contos foram transmitidos oralmente ao longo das gerações por velhos Griots (Griôs - contadores de história). A autoria de muitos deles é desconhecida.
"- Hoje contarei aos meus filhos uma passagem de minha história.
Era noite de chuva na fazenda, os pretos estavam apreensivos e tristes, pois o mais velho daquela senzala havia sido capturado. Aquele que era o símbolo do desejo de liberdade. Estava naquele momento preso aos grilhões do pelourinho. O feitor ordenou que todos fossem colocados à sua volta para que aprendessem a lição de que ali daquela fazenda ninguém mais fugiria, e começou a açoitá-lo. Naquele exato momento Xangô manda os seus raios cortando o céu e uma bela tempestade. Com medo daquilo que acontecia, pois, quanto mais chibatadas, mais raios caiam. Ordenou aos capatazes que trancassem todos os pretos de volta na Senzala.
Os pretos amontoados procuravam se aquecer como podiam. Lá fora preso aos grilhões do pelourinho, um velho preto apesar das dores nas costas dilaceradas pelas chibatadas, admirava cada raio e a água que ali lhe abençoava.
Abadi o velho griot percebendo o que aconteceria reuniu em círculo todos os pequenos em volta do fogo, e lhes disse: - Olorum nosso pai está olhando por nós. E lhes contou que no princípio a morte não existia no Aiyê, aqui na terra. A morte vivia com Olorum na morada dos Deuses, e Olorum não queria que a morte entrasse no mundo. Mas a morte tanto pediu que Olorum acabou concordando em deixá-la partir. Ele sabia que tudo que ele criara tinha um tempo para nascer, um tempo para amadurecer e teria que ter um tempo para morrer.
Ao mesmo tempo fez Olorum uma promessa aos homens: Apesar da morte ter recebido permissão para entrar no mundo, nenhum dos homens morreria. Além disso, Olorum prometeu enviar aos homens peles novas, que eles poderiam vestir quando seus corpos envelhecessem.
Olorum colocou as peles em um balaio e entregou a Ogum para que trouxesse ao Aiyê para entregá-las aos homens. Ogum quando chegou, o Aiyê estava em festa e todos os homens o reverenciavam. Ele com muita fome e sede se pôs a comer o banquete e a comida sagrada que tinha sido ali preparada. Ogum também bebeu o vinho de palma a noite inteira.
Logo Ogum estava embriagado, e esqueceu-se de entregar as peles aos homens caindo em sono profundo.

Oxumarê que tinha muito medo da noite e de envelhecer, aproveitou o descuido de Ogum e roubou do cesto 7 peles coloridas, para trocar sempre que ele envelhecesse. Uma das garotas da roda, esperta e atenta a história de Abadi, lhe perguntou. – Então é por isso que as cobras trocam de pele? - Sim, lhe respondeu o velho sábio. Oxumarê troca a pele das cobras assim que elas envelhecem, pois, elas não cabem mais naquelas peles. - Mas o que aconteceu com a pele dos homens que restou no balaio? Questionou a menina.
Nesse momento os meninos atentos já nem lembravam do que lá fora acontecia. O chão lavado de sangue, mas a cada estralar do chicote, aquele velho preto só agradecia a Xangô por sua vida que ali se esvaía. O Velho Griot continuou sua história e assim os distraía. A chuva foi parando, e lá fora o velho preto já não resistia. A garota olhando aquela cena perguntou novamente. - Abadi você disse que Olorum prometeu aos homens que eles não morreriam, o que aconteceu?
- Filha, Olorum cumpriu sua promessa aos homens. Os homens não morrem, os homens trocam de pele. Olorum muito bravo com Ogum pediu a seu irmão Xangô que trouxesse o balaio de volta ao Orum e cuidasse bem do balaio, pois não era justo que só as cobras mudassem de pele. Sim, minha pequena, os homens pelo desejo de Olorum não morrem, apenas deixam suas peles velhas para trás e retornam ao Orum.
Xangô pela justiça divina entrega uma nova pele aos homens para poderem um dia voltar ao Aiyê e reencontrar seus familiares. A menina com os olhos cheios de lágrimas lhe fez uma última pergunta olhando o pelourinho. - Ele já foi para o Orum? - Sim, minha filha, ele foi ao encontro de Xangô e logo estará de volta em outra pele, livre como todos os homens.
Ali meus filhos, naquele ensinamento simples, Abadi trazia a mais linda perfeição da Lei Divina. A possibilidade da Reencarnação. Abadi falava que a pele que ali ficava, não era mais necessária, pois o espírito daquele velho alcançava a tão sonhada liberdade, e um dia voltaria em uma pele nova para rever seus familiares. Às vezes filhos, os ensinamentos chegam da forma mais simples e inesperada. O episódio que seria uma tragédia aquelas crianças assistirem, foi a grande luz do aprendizado. Ali eu subia ao Orum e hoje desço ao Aiyê para contar essa história em uma pele nova chamada de Pai João. Sim filhos, fui um velho escravizado, que lutou pela liberdade do seu povo, e por muitas vezes capturado. E cada chibatada já foi perdoada, pois, elas que me levaram ao Orum e me tornaram um Preto Velho.
Passamos hoje por momentos difíceis, a qual perdemos entes queridos, e choramos sem compreender que esses entes não morreram. Que esses entes estão trocando de pele, deixando seus familiares, mas que estarão vivos em espírito na eternidade. Que voltarão nessa jornada que não termina. Se existe sofrimento nesse afastamento que ele seja amenizado na certeza que nada termina no Aiyê filhos".
Mucuiu NZambi! Que Deus te Abençoe
Umbanda tem Fundamento
O Rosário dos Pretos Velhos
"Preto Velho senta no toco, faz o sinal da cruz, pede proteção a NZambi para os filhos de Jesus... Cada conta do seu rosário, é um filho que ali está... se não fosse Preto Velho, eu não sabia caminhar..."
Circula no meio Umbandista uma história contada por Vovó Maria Conga sobre a origem do capim rosário, que não se sabe bem onde e quando foi contada a primeira vez, como tantos outros ensinamentos repassados por Pretos Velhos e difundidos em terreiros espalhados por esse país. Essa é "A história das lágrimas de Nossa Senhora!" por ela contada:
“Vovó Maria Conga certa vez me falou.
- Filho você sabe a história do capim rosário?
Eu olhei para ela e falei: - não sei o que é isso Vovó?
Ela sorriu e disse: - é isso que a vovó lhe deu, que está no seu pescoço. O famoso terço de lágrimas de Nossa Senhora.
Fiquei surpreso e ela disse: - Muitos desconhecem a importância deste elemento. No tempo do cativeiro os pretos e pretas velhas ficavam admirados com os terços de cristal dos sinhô e sinhá quando iam à missa e realizavam suas orações. Como nós pretos e pretas não tínhamos condições para ter um terço de cristal criamos o nosso com as sementes do capim rosário, que batizamos de lágrimas de nossa senhora”.
Os terços e rosários confeccionados pelos médiuns com contas de Capim Rosário são muito comuns na Umbanda e tem como simbologia e representação, a humildade ensinada por essas entidades. Sua origem remonta ao Brasil Colonial e aos tempos de escravatura. Período esse da existência das Capelas de Engenho.
As capelas de engenho foram igrejinhas construídas nas fazendas de cana-de-açúcar. A arquitetura das capelas seguia o estilo simples das primeiras igrejas construídas no Nordeste: geralmente baixas, com um só altar (às vezes dois ou três), sem adornos rebuscados ou barrocos em sua construção. A capela era o local onde os negros escravizados eram batizados com nomes religiosos como: Mateus, Antônio, Maria, João e Benedicto. Ali eram convertidos ao Catolicismo e, apesar de participarem das missas, ficavam escondidos no andar superior, apenas escutando a reza sem que os outros os vissem. Na capela eram comemorados casamentos, missas, funerais e outros eventos religiosos. E nas senzalas quando eram proibidos pelos senhores de cultuar suas divindades, sincretizavam seus Deuses (Orixás, Inquices ou Voduns) com os Santos católicos. Já as senzalas eram construções de porte médio ou grande que, normalmente, eram feitas de barro e madeira. Eram abafadas, já que possuíam poucas janelas e, em geral, eram desumanizadas. Os negros eram muito maltratados e passavam suas poucas horas de sono na senzala, em péssimas condições, dormindo juntos e bem apertados, na palha, ou no chão duro.
Assim como o Capim Gordura trazido da África nos navios negreiros forrava o chão das senzalas das fazendas de café em Minas Gerais, o Capim Capiá servia para trançar esteiras e forrar o chão das senzalas das Fazendas de Cana-de-açúcar no Nordeste. Foi ali observando as sementes desse capim que os negros confeccionavam seus rosários utilizando com facilidade aquelas contas em formato de lágrimas, pois a semente já vem polida e furada.
Outro conhecido ponto de Umbanda em homenagem a Pai Matheus de Aruanda diz em sua letra: “Lá no cruzeiro das almas eu vi, eu vi um velho rezando (bis). Era Pai Matheus de Aruanda, com seu Rosário, o velho estava rezando (bis)”.
Ao contar sua história no livro – O Ritual do Rosário das Almas – Pai Matheus narra que: “Quando foi trazido da África para o Brasil, precisamente para Olinda/PE, instalaram-no como escravo doméstico e reunia-se diariamente a sós ou com seus irmãos escravizados, de modo a proceder ao Ritual Sagrado do Santo Rosário de Nossa Senhora”. Pai Matheus era um Tatá das Almas, ou seja, era um sacerdote de reza, onde, através da reza do Santo Rosário invocava as Santas Almas Benditas, para a proteção e cura de todos os necessitados.
Assim essa tradição se perpetuou nos terreiros. Onde existe um Preto ou Preta Velha atendendo veremos café, cachimbo e seus rosários simples de lágrimas de Nossa Senhora. E que assim seja!

Sala de Cura

O que é o Patuá:
As bolsas de mandinga, popularizadas no Brasil como Patuás eram amuletos produzidos e usados pelo povo Malinke ou Mandinga, para lhes trazer proteção e poder. Além de fecharem o corpo, elas permitiam ainda um reencontro com suas memórias ancestrais perdidas.
Os negros Mandinga constituíram um dos impérios mais fortes da Idade Média. De origem africana islamizada do reino muçulmano de Mali, que floresceu no vale do Níger e do Senegal por volta do século XIII, na região denominada Costa da Mina ou Costa da Guiné, no Brasil Colônia foram denominados malês, e foram identificados por usarem em torno do pescoço talismãs com insígnias de Salomão e pedaços de couro com versículos do Alcorão, ao mesmo tempo em que eram tidos como “mestres da magia negra”.
Acreditava-se que as bolsas de mandinga tinham propriedades terapêuticas e que fechavam o seu corpo contra doenças físicas e feitiços. Trazidas à Umbanda pelos bantos calunduzeiros, e pelas irmandades dos pretos da região de Minas Gerais, e ressignificadas no contato com elementos das culturas ameríndias e cristãs-portuguesas onde esses negros se imbricaram e adquiriram outros componentes simbólicos, essas bolsas foram usadas como “patuás terapêuticos” contra doenças do corpo e da alma e ficaram conhecidas como “bolsas de mandinga”. É daí o termo mandinga, no sentido de "magia", "coisa-feita", "despacho".
Diferentes das bolsas de mandingas originais, contendo papéis com versículos do Alcorão e signos de Salomão, os Patuás difundidos pelos negros calunduzeiros, “em geral, eram feitas de pano, quase sempre branco, e continham obrigatoriamente pedaços ou cacos de pedra d’ara (o pedaço de mármore do altar em cujo orifício os padres consagram a hóstia e o vinho) e pequenas tiras de papel cheias de figuras e letras. As bolsas de mandinga coloniais possuíam ainda pedra de corisco, olho de gato, enxofre, pólvora, balas de chumbo, vinténs de prata e pedaços de osso de defunto. Quanto aos papéis, podiam ter as figuras e letras escritas com sangue de frango branco ou preto e, ainda, com sangue do próprio portador da bolsa, não raro se escrevia a oração de São Marcos”. Relata Ronaldo Vainfas em: - Dicionário do Brasil Colonial. A força das mandingas estava no ritual que lhe conferia poder após sua confecção. Eram cozidas dentro de bolsas e defumadas com incensos e ervas. Eram benzidas e “enterradas à meia-noite em encruzilhadas ou postas debaixo da pedra d’ara no altar de uma igreja para em cima delas serem rezadas três missas, adquirindo assim mais potência e eficácia”. Nos conta Daniela Buono Calainho em: - Cotidiano e vida privada na América portuguesa.
Hoje, Pretos e Pretas Velhas de tradição dos calundus e do catolicismo negro das capelas de engenho e, posteriormente, das irmandades dos pretos se utilizam não só dos terços e rosários de contas de lágrima de Nossa Senhora, como também de Patuás terapêuticos. Muito comum os médiuns confeccionarem os Patuás conforme orientação dos seus guias, e após serem benzidos e ativadas suas propriedades terapêuticas e de proteção, serem utilizados nos tratamentos de cura.
Patuás feitos por Pretos e Pretas Velhas são utilizados tanto para a proteção e filtro de energias densas, quanto para harmonização e para o despertar de sentimentos bons. Dependendo da finalidade do amuleto, pode conter diferentes componentes, cores e elementos.
Como confeccionar um patuá
A maneira tradicional de fazer um patuá é por meio da orientação do seu Guia espiritual, que irá solicitar uma série de objetos e elementos que você deve reunir para confeccioná-los.
- Primeiramente escolha o tecido dos saquinhos, que pode ser de algodão cru ou de feltro que é melhor para preservar os elementos dentro. Tesoura agulha e linha de algodão nas cores desejadas.
- Coloque todos os elementos no saquinho, costure com a linha de algodão, meça o cordão em volta do pescoço para que o patuá fique na altura do plexo solar caso seja de proteção e na altura do plexo cardíaco caso seja de harmonização. Podem ser bordados símbolos como cruzes, estrelas de cinco ou seis pontas ou outros símbolos sagrados.
- Peça ao guia para benzê-lo (consagrar e ativar suas magias) e está pronto para ser utilizado. Nunca permita que as pessoas toquem em seu patuá e o mantenha por baixo das roupas.
Patuás de proteção:
- Ervas quentes (desagregadoras) que tem a capacidade de dissolver qualquer substância acumulada que seja prejudicial a saúde espiritual, tais como folha de mamona, pinhão roxo, arruda ou guiné;
- Uma pequena pedra ou conta que repele energias densas, tais como: hematita, ônix, olho de tigre ou ainda, uma semente de esú (olho de cabra);
- Cristais de sal grosso não iodado, pedacinhos de ímã ou mesmo, bolinhas de pólvora.
Patuás de energização:
- Ervas mornas (equilibradoras) que são aquelas com a capacidade de regenerar e equilibrar o campo energético, tais como: manjericão, alecrim, alfazema, louro e boldo;
- Pequenos cristais de quartzo, branco ou rosa;
- Pedacinhos de pau de canela ou grão de café.
Salve o Ponto
Marcas do Tempo
Refrão:
Preto velho pisa, pisa devagar
Antigamente corria igual você
A muito tempo ele já sabe esperar
Coisa que hoje você tem que aprender
A sua estrada tem muita mironga
Tem muita historia boa de aprender
Em cada igreja que passa ele ora
Pedindo a Virgem que interceda por você
( REFRÃO )
De sol à sol como escravo se entregava
A vida dura, você tinha que ver
E a noitinha na senzala ele rezava
Pedindo a Zambi mais um dia pra viver
( REFRÃO )
Oi salve Deus, salve as almas benditas
Quem acredita vai saber entender
Que cada lagrima do velho quando rola
Faz aliviar os pecados de você
( REFRÃO )
Compositor: Sandro Luiz
Oração
Oração aos Pretos Velhos
Santas Almas Benditas,
Protetoras de todos aqueles que se encontram em aflição.
A vós recorremos espíritos purificados pelo sofrimento, grandiosos pela humildade e bem-aventurados pelo amor que irradiam.
Através da vossa intercessão junto a Maria, Mãe santíssima de todos nós
Conceda-nos sua graça e bençãos.
Amados Pretos-velhos ensina-nos um pouco de vossa humildade, de vosso amor, e de vossa pureza de pensamentos.
Para que possamos cumprir nossa missão na Terra, seguindo todos os vossos exemplos de bondade.
Amém! Que assim seja.
Na Estante
Relatos de um preto-velho: A história de vida de Pai Barnabé
- Título
- Relatos de um preto-velho: A história de vida de Pai Barnabé
- Autor
- Carlos Casimiro
- Editora
- Madras
- Corrente
- Universalista
Neste romance, Carlos Casimiro conta a história do Preto-Velho Pai Barnabé, em que o mesmo narra uma de suas vidas passadas. Filho de um casal de escravos, Barnabé fora separado deles muito pequeno. Ao longo de sua jornada conhece Joaquim, escravo como ele, que o ajuda a enfrentar o sofrimento e a vida difícil no engenho. Já mais velho, após anos de servidão, Barnabé é levado para seu último encontro com o açoite. E agora? O que acontecerá? Apenas algumas chicotadas, ou será torturado até a morte? Após horas de suplício, Barnabé é deixado em uma estrada abandonado à própria sorte. Depois de despertar surge a dúvida: será que ele estava vivo na carne ou perdido em espírito? Uma história de superação e aprendizagem, regada com muito amor, esperança, humildade, amizade, nobreza, dignidade e fraternidade.
Expediente
ECOS DE ARUANDA é um informativo sem fins lucrativos do Templo Escola Pai João de Aruanda. O conteúdo não deve ser reproduzido sem prévia autorização. Não pode ser comercializado.
Expediente
- Orientação Espiritual
- Pai João de Aruanda
- Direção / Pesquisa
- José Adilson Dantas
- Pesquisa / Revisão
- Dilene Nunes
- Jornalista Responsável / Projeto Gráfico
- Gleison Cardozo - DRT DF-8266



